Práticas esportivas

Ironman 70.3 Rio: a dura rotina de amadores que treinam para a prova

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Com dificuldades em conciliar treinos, trabalho e família, alguns dizem que o ano tem

poucos meses, que os meses tem poucos dias e que os dias tem poucas horas.

Por Paulo Prudente e Gutenberg Dias

No dia 4 de outubro, o administrador Eduardo Guilhon, de 41 anos, será um dos cerca de mil triatletas alinhados na praia do Recreio dos Bandeirantes para o Ironman 70.3 do Rio de Janeiro.

Atleta da Equipe Márcia Ferreira, Guilhon vai fazer sua estreia na distância, embora já tenha feito uma prova de Ironman.

“Pratico triathlon há cinco anos, antes só corria. Pulei da distância olímpica para o Ironman. Então o 70.3 é uma novidade pra mim. Procuro seguir a planilha de forma completa e a experiência ajuda a não ficar estressado quando se perde um treino. A jornada é longa”.

Como triatleta amador, Guilhon trava uma batalha diária para conciliar trabalho, treino e vida social e familiar. Não é raro vê-lo na madrugada da Cidade Maravilhosa nadando, pedalando ou correndo.

“Faço a maioria dos meus treinos na madrugada e o déficit de sono é constante. Às vezes ele cobra o seu preço. Mas os treinos em equipe rendem muito bem. Especialmente quando treino com pessoas melhores do que eu naquela modalidade. Adoro treinar e desafiar-me é minha motivação”

Eduardo Guilhon não é o único atleta da Equipe Márcia Ferreira que está se preparando para a prova. Assim como ele outros colegas de equipe têm que se desdobrar para manter os treinos em alto nível ao mesmo tempo em que se preocupam com a rotina diária de uma pessoa normal. Sim, normal. Por que para quem está de fora, treinar para fazer provas de Ironman beira a insanidade. Nestes casos, uma planilha bem preparada e que chega toda semana através de aplicativo específico é uma grande aliada.

Que o diga o médico Rafael Galliez, de 38 anos. O triathlon faz parte de sua rotina há apenas três meses, o que faz parecer loucura ele já encarar uma prova como o 70.3. No seu caso, a planilha passa a ter ainda mais importância. “Eu já nadava, pedalava, escalava e remava. O novo foi incluir a corrida na rotina e aumentar a
intensidade de tudo. Dou plantão de 24 horas uma vez por semana e estou terminando meu doutorado em clínica médica, o que às vezes pode me levar a não conseguir fazer no dia o treino específico e quando o plantão é pesado atrapalhar o treino pós-plantão. Mas com algumas soluções e malabarismos, venho conseguindo cumprir a planilha”.

Com tantas preocupações em seu dia-a-dia, Rafael tenta não se preocupar muito com a prova. O médico curte sua evolução na corrida e ainda vê a melhora na natação com um grande desafio. Muito por conta da monotonia dos treinos “Procuro não me preocupar muito com a prova. Ela é um resultado dos treinos. Treinos que podem ser solitários e em grupo. Aliás, os treinos de ciclismo em grupo na madrugada nos ajudam muito. São puxados. Já os de natação em piscina costumam ser monótonos e cansativos”.

Diferentemente de Rafael Galliez, o gerente financeiro Fabrício Aquino, de 38 anos, já fez mais de 10 provas de meio ironman ao longo dos 11 anos de prática do triathlon. Com dois filhos pequenos, Fabrício apela para a experiência para cumprir cerca de 90% da planilha, embora admita que não seja fácil conciliar treinos, família e trabalho. Por isso, o atleta valoriza a oportunidade de fazer uma prova importante perto de casa. “A vantagem de uma prova perto de casa é ter a família por perto sem ter que virar o mundo de ponta cabeça.”

O fato de conciliar horários e dar atenção à família, tira do atleta a oportunidade de treinar nos locais onde a prova será disputada. Mas isso não chega a ser problema para Fabrício, que apela para o rolo quando não consegue fazer os treinos de ciclismo por conta da agenda familiar e profissional. “Na atual fase da minha vida tenho que primar pelo simples. Os treinos de rolo são entediantes, mesmo assim senti uma boa evolução no ciclismo, resultados dos excelentes treinos que a Equipe Márcia Ferreira nos proporciona”.

O fato de exigir treinamento em três modalidades diferentes faz do triathlon um esporte desafiador, o que muitas vezes é visto pelos atletas amadores como uma fuga da dura rotina profissional. Médica infectologista, Juliana Netto, de 41 anos, está terminando um doutorado junto com o marido, com quem tem um filho 10 anos. Praticante de triathlon desde 2009, Juliana define de forma bem humorada o conceito de tempo para alguém em sua situação. “Trabalhamos, estudamos e ainda tomamos conta, sem auxílio de mais ninguém, de nosso filho de dez anos, que está se preparando para um concurso. O ano tem poucos meses, os meses têm poucos dias, e os dias tem poucas horas”, diz bem humorada.

Com três provas de ironman no currículo, Juliana costuma ter a planilha como sua única companheira de treino, embora não consiga cumprir 100% do que a treinadora prescreve, especialmente na natação. ”A natação toma mais tempo de deslocamento e é mais difícil de encaixar no meu dia, que é muito atarefado. Quando me dou conta, já perdi a hora de nadar. Como tenho rolo de treino de ciclismo e esteira em casa, mesmo no ápice do caos, posso fazer o treino, ainda em que horário exóticos, como tarde da noite ou de madrugadinha. O mesmo não acontece com a natação. Gosto muito de treinar sozinha, é uma característica minha. Gosto de ter meus bons e maus momentos sozinha. Acho uma viagem boa. Se canso desacelero, se me sinto forte, dou o meu melhor. Vou sentindo meu ritmo e meu corpo”, conta Juliana, que também considera um desafio a vida social do triatleta que se propõe a fazer provas longas.

“Mesmo com a família, há que se negociar. Depois de me ver treinar para três ironmans eles já incorporaram minha rotina alternativa. Sexta à noite e sábado de manhã nem adianta me convidar, porque sábado tenho que ir pra estrada. Os amigos também já se acostumaram”, completa resignada.

Fabrício Aquino lembra que não é fácil seguir fazendo provas longas por muito tempo. Mesmo não sendo profissional é necessário buscar aprimoramento, caso contrário dificilmente se continua no esporte.

Uma planilha individualizada e uma boa assessoria esportiva são essenciais. “Minha alimentação e cuidado com o corpo evoluíram muito em mais de uma década no esporte Minha maior vitória é, apesar dos diversos contratempos, ter a oportunidade de continuar a cruzar a linha de chegada das provas que me proponho a fazer e me divertir com isso”, completa o triatleta.

 

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