O mundo esportivo é carregado de paradoxos. Por um lado, existe a paixão e o entusiasmo dos fãs e torcedores. Em contrapartida, essas emoções não devem ser manifestadas por bons profissionais que vivem o esporte, já que treinadores (e até atletas!) qualificados são aqueles que “não sentem” ou “aguentam qualquer pressão”.
A partir do momento em que o eixo razão-emoção fica desregulado, grandes consequências podem surgir: sobrecarga mental, estresse constante e má relação entre professor e aluno. Nessa realidade, analisar comportamentos e atitudes é o melhor caminho para manter a harmonia nas assessorias esportivas.
Para conversar sobre esses dilemas e tabus que cercam a realidade de muitos profissionais, venha entender sobre a importância da gestão emocional para treinadores e saiba como ela pode tornar o trabalho mais simples e prazeroso!
Relações entre gestão emocional e o mercado esportivo
Uma coisa é fato: as emoções estão presentes o tempo todo na nossa vida. Euforia, felicidade, insegurança, medo, orgulho e uma infinidade de outros sentimentos. Mas, se elas são comuns, por que representariam um problema?
No esporte, apenas as sensações de conquista e vitória são lidas como relevantes, já que colocam o treinador e o atleta no pódio. E as emoções “negativas” devem ser guardadas, já que refletem a derrota. Aqui, reside o grande problema.
Para a psicóloga Carol Mesquita, essa dualidade carrega uma série de problemas, já que você não se expressa como um todo: “Na prática profissional, essa relação costuma virar uma dificuldade do treinador de abordar conversas sobre falhas, autocobranças extremas e falta de tato que leva tanto ele quanto o aluno à exaustão e à fadiga”, explica.
A realidade dos treinadores enquanto líderes esportivos
A partir do momento em que as emoções são suprimidas e a razão toma conta, os profissionais podem perder a empatia e a sensibilidade na hora de dialogar com seus atletas.
Mesquita informa que todo profissional do esporte aprende a lidar com o corpo, com a dor física, mas não aprende a lidar com a própria experiência interna. Quando ele não olha para si e não reconhece o que incomoda, deixa de lado a habilidade de lidar com as emoções em momentos difíceis.
Na realidade do treinador Vinícius Unsonst, da assessoria esportiva Up Runner, ele comenta sobre esse estresse constante dos profissionais, justamente porque precisam dar conta de tudo, a todo momento.
“Em geral, os treinadores são sobrecarregados por todo tipo de pressão e demanda, já que, quase sempre, precisam fazer tudo sozinhos: organizar treinos, a logística dos serviços, a gestão do grupo e lidar com as emoções e expectativas dos seus atletas”, relata.
O papel da gestão emocional na vida dos treinadores
Na prática, a gestão emocional é sobre a flexibilidade psicológica de cada pessoa em perceber e nomear o que sente, sem gerar julgamentos ou criar guerras contra as próprias emoções. De forma mais direta, é entender o que se passa internamente e interpretar os motivos das emoções aparecerem naquele momento.
A psicóloga Carol enfatiza que, a partir do momento que o treinador estabelece essa interpretação clara do que se passa internamente, ele consegue desenvolver formas mais flexíveis de lidar com as emoções: “Percebo que essa relação permite que o treinador lide melhor com as cobranças e as fases ruins, seja dele mesmo ou dos atletas. Ainda, consegue melhorar a motivação da base e mantém o prazer pelo esporte”, revela.
E como perceber isso no dia a dia? Abaixo, o treinador Vinícius aponta duas situações recorrentes e que podem desenvolver estresse diário:
Fique de olho nos objetivos dos seus atletas
A primeira situação envolve dialogar sobre a realidade do aluno, incluindo a capacidade de treinamento e os objetivos que o fizeram buscar acompanhamento. Nesse momento, os professores precisam de maturidade e jogo de cintura para lidar com expectativas irreais, justamente para evitar dor de cabeça.
Unsonst compartilha uma recorrência em muitas assessorias: “Para mim, um dos momentos mais estressantes é quando chegam clientes buscando resultados que não são reais para o seu atual nível de condicionamento. Por exemplo: alunos que não têm nenhuma experiência na corrida e que colocam como objetivo de curto prazo realizar uma meia-maratona ou maratona”, relata.
Aqui, tenha tato para explicar que é possível alcançar tais objetivos, mas que isso dependerá de tempo, constância e experiência, fatores que, quando alinhados, permitem o desenvolvimento e evitam desgastes desnecessários.
Atenção na hora de conduzir o treinamento
A segunda situação envolve as mídias sociais e o crescimento de perfis divulgando sobre esporte sem ter formação profissional. A era digital aumentou o acesso à informação, mas ela também criou problemas de imagem, principalmente por mostrar apenas um recorte sobre as práticas.
O treinador conversa sobre esse problema: “Outro ponto são alunos que às vezes querem seguir influenciadores que não têm formação específica e que colocam o esporte como fácil, simples e que não demanda cuidado. Temos que gerenciar essas expectativas para que elas não virem frustrações e até mesmo lesões”, orienta.
Nessa situação, apenas oriente os alunos a não consumir compulsivamente esse tipo de realidade, e lembre que o esporte respeita a individualidade, considerando o próprio ritmo e tempo de evolução.
Gestão emocional para treinadores: como desenvolver?
Explicado o conceito e vistas na prática as situações que demandam gestão emocional, está na hora de aprender a desenvolver as habilidades necessárias para que você consiga contornar momentos de tensão, se destacando como líder que realmente é!
Para ajudar, Carol Mesquita lista 3 práticas que devem ser feitas na rotina:
- Entenda que as emoções são mensageiras. Elas não são boas ou ruins, apenas transmitem ao corpo o que sente na interação com o mundo.
- Aprenda a regular as emoções e não controlá-las. Você precisa reconhecer o que sente, em qual contexto elas se manifestam e como está reagindo. A partir disso, é possível mudar.
- Identifique e nomeie o que sente. Ao invés de pensar “estou péssimo”, pense se o sentimento fala sobre frustração, cansaço ou pressão. Essa ação aumenta a clareza mental.
Vínicius Unsonst agrega outras 3 dicas, de acordo com a sua experiência como treinador:
- Reflita sobre as próprias capacidades e dificuldades com os atletas. A relação entre vocês é profissional, não leve falas e opiniões para o lado pessoal.
- Para muitos, a racionalidade deve ser um pilar do trabalho, já que a ciência está envolvida por trás das prescrições. Foque na qualidade do trabalho e nos objetivos da temporada.
- Lembre sempre da individualidade de cada atleta, justamente para não tomar ações precipitadas ou baseadas em emoções desreguladas.
Como reflexão, se você não está conseguindo lidar com as emoções sozinho, peça ajuda! Ter um psicólogo ao seu lado será de extrema importância para não desistir da própria carreira.
O que acontece se o treinador não desenvolver a gestão emocional?
Mesquita relembra que os treinadores são figuras de referência. Mesmo sem perceber, esses profissionais são o termômetro emocional da equipe, já que os atletas captam e entendem o seu tom de voz, nível de paciência, postura e entusiasmo no geral.
Se você ignorar os sinais de estresse e pressão, tanto os seus alunos como a própria assessoria esportiva irão sofrer algumas consequências. Com o intuito de conscientizar, acompanhe os principais efeitos negativos da ausência de uma boa gestão emocional.
Nos alunos
- Aumento da insegurança e baixa adesão ao treinamento esportivo.
- Queda considerável da motivação e presença na assessoria.
- Medo constante de errar ou falhar.
- Possíveis chances de lesões e overtraining.
- Rompimento de confiança com o treinador.
Lembrando que se o treinador agir pela impulsividade, ele deixa de tomar decisões guiadas por critérios técnicos e passa a agir para aliviar o próprio desconforto emocional. Como impacto, o profissional passa a prescrever treinos fora da realidade, justamente por utilizar o trabalho como fuga emocional.
Na assessoria esportiva
- Comunicação passivo-agressiva, sem abertura para diálogos.
- Dificuldade de manter vínculos e parcerias a longo prazo.
- Aumento considerável da rotatividade de atletas.
- Ambiente menos colaborativo e mais hostil.
- Perda de identidade e cultura da equipe.
Por fim, lembre-se de que um treinador emocionalmente regulado transmite segurança e confiança. E é essa relação que cria a sensação de pertencimento: “As pessoas não permanecem apenas pelo treino. Elas permanecem pela experiência que vivem ali”, finaliza a psicóloga.
Sobre os profissionais
Carol Mesquita é psicóloga e professora universitária. Casada com um treinador de corrida, hoje reconhece a importância desse esporte para a própria qualidade de vida. Hoje, enxerga essa modalidade como ferramenta para experimentar e sentir as coisas como elas realmente são!
Vinicius Unsonst é formado em Educação Física desde 2007. Com quase 20 anos de carreira, tem como objetivo se manter atualizado para oferecer o melhor aos seus alunos. Desde 2020, atua na própria assessoria esportiva com acompanhamentos à distância.

