Qualidade de vida

Existe forma segura de usar esteroides anabolizantes?

single image

Formas milagrosas, resultados rápidos, um pouquinho mais de animação daqui, outro tanto a mais no ganho de massa ali. Os esteroides anabolizantes prometem dar aquele “boom” na performance e no alcance dos objetivos dos atletas e amadores. Mas o quanto vale a pena utilizar tais substâncias? É possível usá-las de forma segura?

Segundo a médica cardiologista Erika Alvarenga, os hormônios esteroides são produzidos pela glândula suprarrenal e pelas gônadas, os ovários e os testículos e interferem no diferenciamento sexual. Já anabolismo é o processo metabólico que produz moléculas complexas a partir de moléculas simples, podendo produzir diversos tecidos, como os músculos. Normalmente, o termo esteroides anabolizantes é utilizado para se referir aos hormônios sexuais masculinos, a testosterona e seus derivados. 

Tais substâncias devem ser utilizadas em caso de déficit desse hormônio, é o que explica a nutricionista Carla Bógea “Essas drogas têm como função principal a reposição de testosterona nos casos em que tenha ocorrido um déficit desse hormônio, por exemplo, no envelhecimento, pois atuam no crescimento celular e em tecidos do corpo, como o ósseo e o muscular.”, explica.

Os anabolizantes e seus efeitos

Existem diversos tipos de anabolizantes. A maioria deles envolvidos no metabolismo ou mesmo análogos da testosterona: os esteroides anabolizantes androgênicos. Dentre os mais populares estão a androstenediona e desidroepiandrosterona (hormônios precursores da testosterona), gestrinona, oxandrolona e a própria testosterona. Existem outros anabolizantes além dos hormônios sexuais masculinos, como os moduladores seletivos dos receptores androgênicos (SARMs) e até a tibolona, utilizada na terapia de reposição hormonal em mulheres. Esses hormônios produzem aumento da massa muscular, aumento do número de células vermelhas do sangue (melhorando a oxigenação celular), redução do tecido adiposo (diminuindo a gordura corporal) e aumento da deposição de cálcio nos ossos.

Quanto ao seu uso, Erika explica que hormônios esteroides são utilizados na clínica quando há deficiência na sua produção, nas deficiências androgênicas como o hipogonadismo e quando há atraso na puberdade e no crescimento. “São indicados também no tratamento da sarcopenia grave (perda de massa muscular) associada a doenças como cirrose, insuficiência renal crônica em uso de diálise e doença pulmonar obstrutiva crônica, mesmo em pacientes com produção normal desses hormônios. São utilizados também em alguns tratamentos específicos de câncer.”, revela a médica.

Anabolizantes do esporte

O uso de esteroides anabolizantes é antigo no meio esportivo. Existe um relato de 1954 do uso de hormônios sexuais sintéticos por levantadores de peso no Campeonato Mundial de Levantamento de Peso sediado na Áustria. Isso porque os anabolizantes aumentam a massa muscular, reduzem o aumento do tecido adiposo, melhoram a força, estimulam a produção de células vermelhas e, consequentemente, melhoram a performance. “Eles estimulam a síntese de proteínas, inibem a degradação proteica, estimulam a eritropoiese (a produção das células vermelhas do sangue, responsáveis por levar oxigênio aos tecidos), aumentam a deposição de cálcio nos ossos”, frisa Erika.

Desde o primeiro caso, são muitas as histórias de doping com esteroides anabolizantes na história do esporte de alto rendimento. Dessa forma, sua utilização não é considerada “jogo limpo”. “É considerado doping pela Wada (Agência Mundial Antidoping) e consequentemente passível de punição. Usar anabolizantes para fins estéticos ou para aumentar o rendimento esportivo é proibido, além de ser um grande risco para a saúde. São medicamentos sob controle especial e só podem ser vendidos em farmácias e drogarias, com retenção da receita médica, de acordo com a legislação.”, informa Carla.

Bons resultados vêm com paciência e persistência

Existe o mito de que se é impossível alcançar resultados de forma natural, com base em dietas e treinos prescritos por especialista. Mas se você também é desse time, pode começar a rever seus conceitos. De acordo com Carla, desde que o indivíduo não apresente nenhuma deficiência clínica que justifique seu uso, obviamente, é possível através de suplementos alimentares legais e sem efeitos colaterais, além de treino e alimentação. “Claro que os resultados demoram um pouco mais para aparecer e infelizmente muitas pessoas não têm paciência com o processo. Mas a consciência do correto e de ter escolhido um caminho verdadeiramente saudável e seguro, é a própria recompensa.”, incentiva a nutricionista.

A médica também reafirma que é possível alcançar os objetivos, mesmo que não tão rápidos, sem utilizar as substâncias. De acordo com Erika, tudo depende do treinamento físico adequado à dieta balanceada, com acompanhamento de profissionais de educação física, nutrição e médicos. Dessa maneira, é sim, viável melhorar a composição corporal e o desempenho, mas alguns resultados podem ser apurados. “A avaliação clínica e metabólica do atleta também é importante para detectar algum distúrbio metabólico ou doença que prejudique o seu desempenho. No entanto, mesmo com alimentação, suplementação e treinamento a performance do atleta é influenciada pelos níveis hormonais, pela concentração de células vermelhas, pela massa muscular e outros fatores que são aprimorados pelo uso de esteroides anabolizantes.”, esclarece a médica.

Para cada pessoa, uma consequência

O uso de anabolizantes traz consigo também diversos efeitos colaterais como tremores, acne severa, retenção de líquidos, dores nas juntas, aumento da pressão sanguínea e de agressividade, tumores de fígado e pâncreas. “Os esteroides podem causar tremores, alterações dermatológicas (como acne e crescimento de pelos), aumento da libido, infertilidade, distúrbios do colesterol (aumento do LDL e redução do HDL), aumento da pressão arterial, aumento da hipercoagulabilidade (predispondo a formação de trombos), hipertrofia ventricular cardíaca, além de irritabilidade, agressividade, euforia e distúrbios do comportamento.”, alerta Erika.

Tais efeitos adversos interferem de forma diferente dependendo do perfil de cada pessoa. Os jovens, por exemplo, na teoria não precisam de tal intervenção: “Se o consumo começa cedo, na pré-adolescência, o crescimento pode ser interrompido, deixando o usuário com baixa estatura.”, explica a nutricionista. A cardiologista Erika também explica o porquê de tal efeito. “Isso acontece, pois os esteroides quando utilizados em crianças e adolescentes antes da puberdade provoca fechamento das epífises dos ossos.”, complementa.

Além disso, os efeitos também são diferentes em homens e mulheres. No corpo feminino, pode ocorrer amenorreia, alterações da voz, crescimento de pelos na face, irregularidades na menstruação e diminuição dos seios. Já nos homens, os esteroides podem causar ginecomastia (crescimento das mamas), redução na produção de esperma, impotência e calvície.

Existe uso seguro de anabolizantes?

A medicina tem indicações clínicas específicas para a utilização dos anabolizantes. Para isso, é necessário a avaliação médica e laboratorial e  acompanhamento rigoroso visando reduzir os efeitos colaterais indesejados. É preciso também que o médico peça uma avaliação completa do paciente. A história clínica, a presença de doenças endocrinometabólicas, distúrbios do comportamento, tratamentos prévios com terapias hormonais (como as utilizados no tratamento do câncer), doenças cardiovasculares (por exemplo a hipertensão arterial) e avaliação laboratorial (com hemograma, eletrólitos, minerais, hepatograma, perfil lipídico e níveis hormonais) devem ser considerados no momento da indicação dos esteroides.

Mas atenção! Além dos efeitos colaterais já comentados, Érika faz um alerta, já que os esteroides anabolizantes são hepatotóxicos e podem causar alterações da função hepática, até tumores no fígado, disfunção renal, hipertrofia do ventrículo esquerdo dificultando o enchimento e a contração cardíaca, aumento da pressão arterial, dislipidemia, infertilidade e distúrbios do comportamento. “Os anabolizantes afetam diversos sistemas podendo causar diferentes patologias como disfunção renal, disfunção hepática, hipertensão arterial, dislipidemia, trombose, infertilidade, ginecomastia, tumores de próstata e hepáticos.”, enfatiza.

Mas mesmo com tantos perigos, por que essas substâncias são tão procuradas? Erika explica que é porque estimulam o aumento da massa muscular (efeito anabólico) e a redução do tecido adiposo, isso é, melhoram a força e consequentemente o desempenho. A médica também afirma que algumas delas não são ilícitas no Brasil, mas sim, são consideradas doping. “Apesar de não serem ilícitas no Brasil, o uso requer prescrição médica. Atletas profissionais submetidos a testagem do sistema antidopagem podem ser punidos quando comprovadamente em uso dessas substâncias, mesmo com indicação médica. A lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidoping (WADA) de 2021 considera os esteroides anabolizantes proibidos em todos os esportes.” , finaliza. 

Conheça as profissionais

Carla Bógea é nutricionista desde 1996 e atende atletas amadores e Nutricionista Carlos Bógeaprofissionais. Especialista em nutrição aplicada à atividade física, Doutora em Ciência dos Alimentos e também atleta amadora de corrida e triathlon.

 

Cardiologista Erika AlvarengaErika Alvarenga é médica com especialização em Cardiologia e Medicina Esportiva e doutoranda em Ciências Cardiovasculares pela Universidade Federal Fluminense. Desde criança faz esportes como basquete, tênis e, atualmente, pratica natação e corrida.

Posts relacionados