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Comparada a outras modalidades, a corrida possui um grau técnico relativamente baixo no que diz respeito aos seus gestos motores. O esporte inteiro se baseia na repetição exaustiva de um único movimento, o que torna importantíssimo seu aperfeiçoamento. Mas será que é possível forçar este processo?

Quando se fala em técnica de corrida, pensa-se logo em um treinador acertando a postura de seus corredores e realizando séries de exercícios educativos para corrigir pontos específicos do gesto de cada um. Mas além das questões posturais, como a inclinação correta do tronco, a posição dos braços, quadril e a forma de tocar o pé no solo, um ponto que gera dúvidas em corredores é a relação entre o comprimento e a frequência de passada nas diferentes velocidades de corrida.

A velocidade de corrida, ou ritmo, é determinada pelo produto entre a quantidade de passadas por minuto (cadência) e o comprimento de cada passada. Aumentos de velocidade podem ser obtidos de três maneiras: aumentando-se a cadência das passadas, o comprimento de cada passada, ou ambos.

Quando optamos por uma velocidade nova, mais alta, o organismo vai naturalmente experimentando relações diferentes entre as duas variáveis até chegar num ponto ideal. Além disso, é comum que corredores tentem mudar sua passada conscientemente, experimentando em treinos às vezes com passadas mais curtas e rápidas, às vezes com passadas longas e mais lentas.

A velocidade natural de corrida, aquela que não exige esforço consciente por parte do corredor, é o resultado da otimização neural feita com base nas corridas que fizemos anteriormente em nossas vidas, num processo semelhante ao de uma criança que aprende a caminhar. No início, os passos de um bebê são incertos, descoordenados, e com o tempo o sistema nervoso ajusta os movimentos, eliminando contrações musculares desnecessárias etc.

O mesmo processo acontece com a corrida, e tentar interferir ativamente nele costuma ser um erro. Isso porque, com a experiência adquirida ao longo de quilômetros e quilômetros, nossos músculos aprendem a contrair-se de forma a gastar o mínimo possível de energia para cada velocidade. Assim, não apenas estamos adaptados do ponto de vista mecânico, mas também do ponto de vista energético para correr em nosso ritmo “natural”.

Tentar modificar a relação entre o comprimento e a frequência de passada tem o efeito agudo de aumentar o custo energético da corrida com efeitos prejudiciais para a performance. Este ritmo natural de corrida, aliás, não é fixo. Muito pelo contrário: conforme aumentamos nosso ritmo de corrida, tanto a frequência quanto o comprimento de passadas aumentam, porém em proporções diferentes. A frequência de passadas aumenta mais lentamente, e atinge seu pico em cerca de 70-80% da velocidade máxima de corrida, a partir de onde diferenças de velocidade de corrida são alcançadas quase que exclusivamente por passadas mais largas.

Fonte: Revista Contra Relógio

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