Alimentação

Dietas detox: as evidências científicas

Há algum tempo escrevi aqui sobre as dietas de desintoxicação, chamadas de Detox. Essas dietas e seus componentes, como o suco verde, o suco rosa, estão em grande evidência na mídia e nas redes sociais com um apelo de “limpar o corpo” e de resultar em perda de gordura corporal de maneira saudável, correta e sustentável.

Celebridades têm emprestado o nome e fama à propagação dessas dietas e dos produtos relacionados a elas, fazendo propaganda, conscientemente ou não (remunerada ou não), desse método de “melhora” do funcionamento do organismo. Além disso, profissionais de diversas áreas (nutricionistas, nutrólogos e outros médicos, educadores físicos, fisioterapeutas, enfermeiros) tem também recomendado a seus pacientes, alunos as dietas de desintoxicação ou seus componentes como o suco verde e afins.

Como médico interessado no bem estar, saúde e resultados dos meus pacientes e na educação da população quanto a hábitos saudáveis, mas também com uma formação acadêmica pautada na “medicina baseada em evidências” fiz uma pesquisa na literatura sobre evidências dos benefícios das dietas de desintoxicação e também procurei saber dos profissionais que defendem seu uso em quais evidências eles se baseiam para recomendar que pacientes façam uso de dietas desintoxicantes. Segue aqui um breve resumo do que realmente existe na literatura científica sobre as dietas de desintoxicação.

O que é “desintoxicação”? – Desintoxicação é a prática de remover toxinas acumuladas no organismo seja aumentando sua metabolização ou combatendo seu acúmulo com agentes quelantes. A grande maioria dos profissionais da saúde consideram terapias alimentares de desintoxicação uma “pseudociência” baseada em uma interpretação errada de princípios fisiológicos que hoje está disseminada na internet e é baseada totalmente em relatos e testemunhos de seus defensores, mas sem nenhuma base científica.

Toxinas: são substâncias nocivas ao funcionamento do organismo e que, em determinadas quantidades, podem causar grandes prejuízos a saúde. A grande maioria das toxinas presentes no organismo não chega sequer perto de concentrações que realmente tragam algum prejuízo a saúde. Convém lembrar que o conceito de dose é fundamental para determinar a toxicidade de uma substância. Mesmo a água, se ingerida em grandes volumes, pode levar a intoxicação gerando uma condição conhecida como hiponatremia dilucional.

Toxinas na alimentação: realmente acumulamos toxinas provenientes dos alimentos, do ar e da água que ingerimos. Nos tempos atuais estamos expostos a maiores quantidades dessas toxinas do que em tempos anteriores. Porque não “limpar o organismo” com as dietas Detox? As dietas Detox, sucos verdes e etc não fazem nenhuma diferença no processo de remoção das toxinas.

E isso pode ser muito bom, pois se de repente, uma grande quantidade de toxinas acumuladas nas células fosse liberada na circulação de uma vez provavelmente nosso organismo não conseguiria lidar com elas e isso poderia ter consequências muito ruins. Como nos livramos dessas substâncias então? O principal “limpador” do nosso corpo é o fígado.

Praticamente tudo o que ingerimos é digerido, absorvido e passa pelo fígado antes de ir para os outros órgãos do corpo. Dependemos do fígado para regular, sintetizar, estocar e secretar diversas proteínas e nutrientes, mas também para metabolizar, degradar, purificar, transformar e desprezar substâncias tóxicas ou desnecessárias.

Apesar disso, o fígado não acumula essas substancias tóxicas. Elas podem até passar pelo fígado várias vezes para que esse consiga degradá-las, mas elas não irão se acumular nesse órgão (exceção feita à vitamina A, ferro e cobre que podem se acumular no fígado como sinal de doenças).

O colon também não acumula toxinas, apesar de estar repleto de bactérias e eliminar fezes. Fezes endurecidas não se acumulam nas paredes do colon e o organismo não absorve as substancias contidas nas fezes. As células adiposas apresentam diversas características que fazem com que alguns médicos as considerem órgãos endocrinológicos e não apenas depósitos de gordura.

Elas reservam no seu interior, além de gordura, algumas toxinas. Os defensores das dietas Detox afirmam que com o uso de dietas extremamente restritivas, totalmente isentas de toxinas (isso é impossível, mas não vem ao caso) e com grandes quantidades de líquidos, nosso corpo irá eliminar o conteúdo das células adiposas e, portanto as toxinas.

Acontece que a restrição na ingestão calórica faz com que nosso organismo utilize apenas a gordura das células adiposas e não todo o seu conteúdo. No caso de fome extrema, as toxinas realmente serão colocadas em circulação, mas serão transportadas novamente ao fígado que as metabolizará e as enviará de volta as células adiposas.

Resumindo: Não existe nenhuma evidência que as dietas de desintoxicação (Detox) realmente tragam algum benefício ao organismo, Os princípios por trás das dietas Detox são considerados “pseudo ciência”. As dietas Detox e seus componentes podem colocar sua saúde em risco. Os produtos e receitas das dietas Detox resultam em perda de tempo, dinheiro e, em alguns casos, saúde. Preste atenção ao que você faz com seu corpo.

Conheça e confie no profissional com quem você faz seu acompanhamento. Questione, pergunte sobre estudos ou trabalhos científicos que realmente comprovem aquilo que ele está propondo para você. Desconfie de fórmulas mirabolantes ou que prometem resultados rápidos e milagrosos.

Dr. Ricardo Borges

Triatleta e parceiro do Treinus

Médico Nutrólogo

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