Eventos Práticas esportivas Qualidade de vida

Desafio do Rio: uma prova de estratégias e autoconhecimento

single image

Primeiramente quero me apresentar a vocês. Meu nome é Cássio Diniz e sou corredor de rua há mais de 10 anos. Desde 2010 eu faço uma maratona por ano e em 2018 resolvi buscar algo maior, algo que me desafiasse. Foi aí que eu resolvi me inscrever no Desafio do Rio. Eu que já havia feito a maratona do Rio no ano de 2014 e feito algumas vezes as duas principais meias maratonas do Rio (Meia Internacional e Meia da Caixa), entendi que tinha condições de encarar a primeira edição do desafio, que consiste em correr a meia maratona no sábado e a maratona no domingo.

Durante meses me preparei para as duas provas, fazendo sempre dois treinos longos aos finais de semana e treinos mais curtos durante a semana. Fisicamente eu estava bem preparado, pois sabia que o volume de treinos e as 9 maratonas já completadas me davam condições de encarar essa nova proposta.

Minha estratégia de prova, que fiz junto com o meu treinador Daniel Teodoro, o Teo, da Teo Esportes, era correr a meia maratona em um ritmo confortável (ritmo de 5 minutos por km) e na maratona tentar manter esse mesmo ritmo e forçar um pouco no final (se tivesse perna pra isso).

No sábado da meia maratona tudo saiu conforme planejado. Como meu Garmin estava programado para apitar a cada 10 minutos, eu conseguia verificar de dois em dois quilômetros o quanto eu estava próximo da minha meta de manter um pace de 5:00. No final, completei a meia maratona em 1h45, exatamente no ritmo que eu havia combinado com o Teo.

Terminada a prova, fui logo fazer uma massagem esportiva para soltar a musculatura e ficar relaxado para o dia seguinte, quando eu iria enfrentar os 42km da maratona. Como eu queria mudar um pouco o foco e relaxar para o dia seguinte, fui à praia encontrar os amigos da assessoria e alguns ficaram surpresos com a minha presença, já que eu deveria estar descansando para o dia seguinte. Mas essa era a minha estratégia: mudar o foco para poder relaxar e esquecer um pouco a prova. Em 2014, por exemplo, na véspera da prova fui ao cinema com os amigos da assessoria, para dar uma relaxada e esquecer um pouco a maratona.

Chegou o grande dia, o dia de enfrentar a maratona do Rio de Janeiro pela segunda vez, só que agora após ter corrido uma meia maratona no dia anterior. Fui bem cedo pra largada e estava bem tranquilo, bem relaxado. Nesse momento eu percebi o quanto a experiência em provas de longas distâncias me deixou preparado para tudo que estava por vir.

Só que eu não imaginava o que estava por vir e foi aí que entrou a primeira mudança na estratégia: como a largada foi muito tumultuada, eu completei os dois primeiros quilômetros em 5:40 e 5:20, respectivamente. Para manter a média de 5:00 que eu queria, eu teria que apertar o passo. Só que eu sabia que se fizesse isso nos próximos dois quilômetros, teria que baixar muito o pace e que poderia me cansar rapidamente. Coloquei então a meta de completar os 10km em 50 minutos, dividindo em 8km esses 60 segundos que estavam acima do previsto.

Estratégia feita, prova adaptada e eu completei os 10km em exatos 50 minutos. Tudo pronto agora? Que nada, agora que vem a lição que tive com a importância do autoconhecimento.

Abrindo um parêntese, há aproximadamente dois anos comecei a minha busca por me conhecer melhor. Isso eu fui conquistando com terapia, com o Eneagrama (um estudo dos nove tipos de personalidades), com o thetahealing (um processo de cura energética, quântica e espiritual, onde é identificado e transformado crenças padrões e limitantes armazenadas no subconsciente que dificultam a vida em vários aspectos), além dos treinamentos que fiz com base no autoconhecimento, tanto para o crescimento pessoal quanto para o desenvolvimento em equipe, realizado através do Instituto Você.

E o que isso tudo tem a ver com a corrida? Tudo! Porque na corrida – principalmente em longas distâncias – você trabalha seu emocional o tempo todo. É a sua cabeça brigando com seu corpo. É a cabeça mandando parar e o corpo querendo seguir. Só que se você deixar a sua cabeça te derrubar, não tem corpo que te leva até o final da prova.

Na prática, comigo aconteceu assim: no km 8 da maratona eu comecei a mentalizar a linha de chegada. Pensar naquele momento poderia me trazer forças para seguir os 34km que faltavam. Só que essa imagem na minha cabeça veio na hora errada. Porque junto com a linha de chegada, veio também o cansaço do fim de prova. Quando eu percebi, o meu corpo estava numa posição de fim de prova, encurvado, quase entregue aos metros finais, sendo que faltavam muitos quilômetros para concluir a maratona.

Foi aí que me lembrei de uma conversa que tive com minha terapeuta após o término de um relacionamento. Da mesma forma que não adiantava eu ficar sofrendo, pensando no que aconteceria daqui a seis meses, não adiantava também ficar naquele momento focado no que aconteceria daqui 34km. Como na vida sentimental eu deveria viver cada dia de uma vez, na maratona eu precisava viver cada quilômetro de uma vez. Então eu acertei a minha postura, foquei na prova, lembrei das orientações do Teo em relação aos movimentos de braço e na posição do corpo e voltei pra prova.

Dois quilômetros depois uma situação inusitada, que até então não tinha vivido. Um calor infernal e um tempo abafado – desses que eu nunca havia sentido lá no Rio – me fizeram transpirar mais do que o normal, ficando com a camiseta encharcada. Quem me conhece sabe que eu sou meio fora da curva, pois já terminei algumas maratonas com a camiseta completamente seca. Só que ali eu tava vivendo o extremo. A camiseta molhada estava me incomodando e mexendo novamente com meu psicológico. Como eu não queria (e nem podia) ter nada me incomodando nesses 32km finais, entendi que era mais viável tirar a camiseta do que correr com ela molhada.

Na chegada ao Leblon, encontrei uma turma da Teo Esportes e joguei pra eles a camiseta e a viseira que já me incomodavam e fui livre continuar a prova. Aí eu comecei a curtir a prova. Já não tinha dor, não tinha cansaço, só tinha animação e sorrisos, por estar correndo em um dos lugares mais bonitos que já corri.

Para se ter uma ideia de como as coisas melhoraram pra mim durante a prova, meus últimos 10km foram todos entre 4:40 e 4:50 de ritmo, sendo que meu melhor quilômetro da prova foi o 36, quando mantive uma média de 4:30. Completei a prova sorrindo, feliz em ter concluído o desafio e por ter feito meu segundo melhor tempo de maratona: 3h24. Mesmo tendo corrido uma meia maratona no dia anterior, mesmo no calor do Rio de Janeiro. Pra completar a felicidade, consegui meu primeiro split negativo, que é fazer a segunda parte da prova mais rápido do que a primeira. Fiz os primeiros 21km em 1h44 e os últimos em 1h40. Apesar de não ter sido meu melhor tempo de maratona (fiz 3h19 em Buenos Aires), foi certamente a minha melhor prova.

Percebe como a corrida te faz traçar estratégias e ao mesmo tempo alterar essas estratégias durante a prova? Devemos sempre contar com os imprevistos. E se falta água naquele ponto de hidratação? E se o iPod falha antes da largada, como foi comigo na minha segunda maratona? E se um vento de 70km/h contra, te faz ter que alternar entre corrida e caminhada nos últimos 10km, como aconteceu comigo em Las Vegas? E se depois de treinar por quatro meses, na madrugada da prova você acorda passando mal e isso te faz abandonar a maratona no km 4, como aconteceu em Paris?

Os imprevistos são inevitáveis. Isso a gente não pode mudar. O que podemos mudar é a forma que vamos reagir a eles. E isso eu aprendi (e aprendo diariamente) com o autoconhecimento. Dizem que quando o corpo acha que chegou ao limite, a cabeça ainda aguenta mais uns 30%. Você é que decide quem vai mandar em você, se é seu corpo ou a sua mente.

1 Comentário
  1. Avatar
    Tayná Alencar 2 mesesatrás

    Parabéns pelo blog, ótimas matérias!

Deixar um comentário

Fique tranquilo que não publicamos o seu endereço de email.

Posts relacionados