Qualidade de vida

Depoimento de um Ultramaratonista

single image

O post de hoje é um relato da participação do corredor brasileiro em uma das mais emblemáticas ultramaratonas do mundo, a de Copper Canyon, no México.

O brasileiro que trilhou os caminhos de Caballo Blanco foi o médico veterinário André Luís Dutra, o “Zum-Zum” de 29 anos. Dutra participou da prova de 80 quilômetros em terreno inóspito e montanhoso menos de dois meses depois de ter corrido a ultramaratona BR-135, 217 quilômetros na serra da Mantiqueira.

Mineiro de Belo Horizonte, Dutra começou a correr há quatro anos e já fez mais de dez ultramaratonas, inclusive a dos Anjos, de 235 km. Participou da prova com seu amigo Rodrigo Vilalba, de São Paulo. Os dois voaram para o México via Panamá, desembarcando em Ciudad  Juarez, onde alugaram um jipe para enfrentar mais de 700 km até o local da corrida. Depois de alguns perrengues, erro de caminho e medo de traficantes, que dominam a região, enfim chegaram a Urique, sede da corrida.

A seguir, acompanhe o relato de André Luís Dutra na integra:

“Assim que chegamos a Urique, avistamos mais dois brasileiros, que nos indicaram um bom restaurante, onde fomos comer, e logo em seguida pegar os kits, rápido e eficiente, muitos voluntários do mundo inteiro, um clima de cooperação, fraternidade, companheirismo, amor, paz, reina no ar. Os raramuri são fotografados a todo momento, são a principal atração para os corredores, a corrida é uma mera formalidade.  Muitos corredores trazem donativos. Os índios não pagam e, no dia seguinte a prova, trocam as pulseiras de cada ponto de controle por alimentos e sementes. A presença de índios é maciça.

No acampamento, trocamos de roupa rapidamente e fomos nadar no rio Urique, tido como o rio Ganges dos ultras. Como foi bom. Saímos de lá, trocamos de roupa e voltamos para o centro da cidade, onde haveria um show de violeiros mexicanos e a abertura oficial do evento.

Foi uma abertura completamente diferente de tudo que já tinha visto: em praça pública, aberta a todos, recheada de homenagens a Caballo, com danças típicas, apresentadas pelo grupo de uma universidade estadual.

A organização logo me identificou como brasileiro e me deu um cartaz de cartolina com o nome do Brasil. Passou alguns minutos, começaram a levantar as bandeiras dos mais de 15 países que ali estavam representados. E eu me levantei orgulhosamente, de peito cheio, gritando em alto e bom som, BRASIL. Depois do México, fomos os mais aplaudidos. Terminada a cerimônia, achamos um espaguete ao molho sugo, jantamos e fomos dormir, eu na barraca e o Vilalba no carro.

Noite tranquila, silenciosa, e assim um sono dos deuses. A largada foi às 6h, e a ideia que eu tinha era de que teríamos duas grandes subidas, uma do km 12 até o km 20, e outra do km 44 ao km 54. O restante mamão com açúcar. Minha estratégia: subir tranquilo, descer bem forte e trotar no plano, como na Comrades. Nossa meta era acabar com menos de 10 horas, tempo de corte do km 66.

Nada disso. As subidas são em caminho para apenas uma pessoa (single track, como dizem), muito difíceis. Sofri. E as descidas, íngremes, com aqueles cascalhos soltos,  pedras grandes, do tamanho de laranjas, como se fossem sabão em um piso molhado.

Fui tranquilo ate o km 31, mas a musculatura rapidinho se lembrou da BR-135, e aí foi duro. Por sorte fiz alguns amigos, Dario Ilescas e Ignacio Gonzales, que foram comigo desde o km 31, me apoiando, esperando e incentivando, sem eles seria muito mais difícil.

No km 43 encontrei Zé Elias, ainda sem notícias do Vilalba, que deveria estar mais à frente. Comecei a subir o famoso Los Alisos, uma trilha de 5 km que nos leva ao sítio de um grande amigo de Caballo, trilha dura, estreita, que corta as barrancas e vai subindo e descendo. Lá em cima, no km 47, encontro o Vilalba voltando, já no km 52, com uma cara de muito cansado, algo um pouco atípico.

Segui fraquejando. Afinal, se meu amigo, aquele monstro, estava naquelas condições, imaginei logo o que viria. Àquela altura, corria contra o tempo, pois havia sérias chances de ser cortado no km 66, não haveria tempo hábil, precisava fazer 19 km em menos de três horas.

Ao chegar a Los Alisos, havia uma linda homenagem a Caballo Blanco. E eu, morto, já me preparando para desistir, pois agora 16 km para serem feitos em duas horas, não daria conta, desistir era questão de poupar.

“Passados alguns minutos, chegou o Clayton Conservani, aquele repórter da Globo, que me informou que não haveria mais ponto de corte, aquilo me deu uma energia nova, nascia de novo, afinal, depois daquele 5km de trilha, me restariam 25 km, em sua maioria plano.

Levantei e comecei novamente, animado, mas muito cansado, as pernas já não eram mais as mesmas, a cabeça parecia uma locadora de vídeos, a cada momento um filme diferente, isso quando não rodava uns dois ou três filmes ao mesmo tempo. Segui firme, caminhando, e algumas poucas vezes, um trote.

O km 66 era o mesmo ponto da largada. Passei 66 firme, não queria mais parar, naquele momento determinação era tudo. Via muitos desistindo, entrando em carros, e eu não iria participar daquilo, iria completar.

Lá pelo km 68 vi uma outra brasileira, éramos 5 brasileiros na prova. Perguntei pelo Vilalba, e ela disse que ele viria logo atrás, mas nada de ver ele, fui seguindo preocupado pois ele estava bem a frente dela, e agora nada.

Fiquei aliviado uma hora depois,  quando o vi caminhando apoiado numa muleta. Apesar de muito cansado, seguia bem, as pernas fracas, cansadas, mas era normal, tinha feito uma prova duríssima apenas alguns dias atrás.

Perto do km 70 vejo um homem caído na estrada, era o Clayton, já sem forças até para conversar, havia vomitado muito e estava ali deitado à espera de ajuda. Depois de ficar ali deitado por algum tempo, continuei, com uma vontade ainda maior, alternando a caminhada com trotes mais rápidos e mais longos.

Para minha surpresa, no último posto de controle, no km 73, a organização já estava toda no carro, partindo e recolhendo alguns corredores. Não acreditava naquilo, depois de tudo que passei, faltando apenas 7 km, seria recolhido. E todos me chamando para o carro, minha cara de cansado era evidente, mas depois de alguns instantes, disse que não, que não desistiria, e que se fosse preciso correria os 7 km restante, mas desistir estava fora de cogitação, e que mesmo que eles não me dessem a pulseira ou não anotassem meu numero, eu prosseguiria.

Nesse momento a mulher me pediu o numero de peito, anotou e me colocou a pulseira. Tinha planos de repor agua, comer algo, mas nada, saí correndo, para a volta, não queria mais parar, era um sonho a alguns minutos de ser realizado, não poderia fraquejar.

Segui firme e cheguei. Maria Walton, a lendária namorada do Caballo Branco, nos aguardava, e colocava um amuleto no pescoço de cada corredor, do 1º ao último. Esperou todos para ir embora e, apesar de eu ter sido o último a receber a pulseira, outros corredores seguiam na prova, a fim de terminar aquele sonho mágico.

Lá também estavam meus amigos mexicanos Dario e Ignacio, Vilalba e tantos outros que durante o percurso tive o prazer de conhecer, apoio, japoneses, meninos, outros mexicanos. Ao final mal dava conta de andar. Mas tão feliz e realizado como há anos não acontecia. Fomos rebocados em uma viatura policial até o camping e tão exaustos que nem tomamos banho.

Dormimos com o amuleto, naquele momento ele era parte de nós. Dormimos como uma criança que um dia sonhou em viver uma aventura com seu super-herói.”

Posts relacionados