Práticas esportivas

Como conciliar corrida e musculação na rotina esportiva?

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Corrida e musculação ainda são vistas por muitos praticantes como atividades que podem disputar espaço no dia a dia. De um lado, existe o desejo de evoluir nas pistas e, do outro, o receio de que o treino de força comprometa o ritmo ou atrapalhe a recuperação no esporte.

Entretanto, quando fazem parte de um planejamento alinhado, as duas práticas podem se complementar. Nesse contexto, o fortalecimento muscular oferece suporte às exigências da corrida e pode contribuir para movimentos mais eficientes, mas precisa considerar o objetivo, a rotina e o momento da preparação de cada corredor.

Para esclarecer essa relação, conversamos com o treinador Carlos Felipe, da Assessoria Runners Club, que explica quais são os benefícios de combinar as duas práticas na rotina, como organizar os estímulos e quais cuidados ajudam a evitar a sobrecarga.

Por que combinar corrida e musculação?

Quando se pensa em evoluir na corrida, é comum olhar primeiro para a distância percorrida, o ritmo e o fôlego. Esses fatores são importantes, mas não trabalham sozinhos. A musculatura também precisa produzir força para impulsionar o corpo, controlar o contato com o solo e continuar respondendo à medida que o cansaço aumenta.

Para responder às diferentes exigências da corrida, a musculação pode fazer parte da preparação física do corredor. As adaptações desenvolvidas no treino de força não ficam restritas à academia e podem contribuir para diferentes aspectos do desempenho na modalidade.

Entre os principais benefícios apontados pelo treinador Carlos Felipe estão:

USO MAIS EFICIENTE DA ENERGIA: A musculação pode ajudar o corredor a gastar menos energia para manter o mesmo ritmo. Com isso, ele consegue sustentar o desempenho por mais tempo, especialmente em distâncias maiores.

DESENVOLVIMENTO DE FORÇA E POTÊNCIA: A força participa da impulsão do corpo, enquanto a potência permite aplicá-la com rapidez. Essas capacidades são utilizadas em situações como subidas, acelerações e mudanças de ritmo.

MAIS ESTABILIDADE AO LONGO DO PERCURSO: A corrida alterna momentos de apoio sobre uma das pernas, o que exige controle corporal. Uma musculatura preparada ajuda a responder a essa demanda e a preservar a coordenação mesmo com o avanço do cansaço.

Embora as pernas concentrem grande parte do esforço, elas não trabalham sozinhas. O core, conjunto de músculos do abdômen, da lombar e da pelve, dá suporte ao tronco, enquanto os braços acompanham o ritmo e ajudam a equilibrar a sua rotação. Por isso, o fortalecimento muscular deve considerar o corpo de forma integrada.

Além do desempenho, uma musculatura preparada pode ajudar o organismo a responder melhor às cargas dos treinos, evitando possíveis lesões: “A musculação ajuda na prevenção, mas não impede que a pessoa se lesione em algum momento, porque esse problema é multifatorial”, explica.

O termo multifatorial indica que diferentes elementos podem contribuir para o surgimento de uma lesão. Progressão inadequada, recuperação insuficiente, histórico do praticante, sono, alimentação, estresse e demandas do trabalho são alguns dos fatores envolvidos.

Dessa forma, a combinação de corrida e musculação amplia os recursos físicos utilizados pelo corredor e pode contribuir para reduzir o risco de lesões, mas não funciona como uma proteção isolada. Esses benefícios também podem fazer parte da rotina de iniciantes e praticantes recreativos, porém o que muda é a maneira como o trabalho deve ser adaptado ao nível de experiência e aos objetivos de cada pessoa.

A musculação para corredores deve ser diferente?

O treinamento de força pode atender a diferentes objetivos dentro da preparação física. Para Carlos Felipe, trata-se de uma prática ampla e importante: “A musculação é a principal atividade do ser humano e é uma das mais complexas e completas”, afirma.

Ainda assim, durante muito tempo, a musculação foi associada principalmente ao fisiculturismo e ao aumento da massa muscular, conhecido como hipertrofia. Essa relação ajuda a explicar por que alguns corredores ainda acreditam que o fortalecimento pode deixá-los mais pesados, lentos ou com menor mobilidade.

Porém, para quem corre, os objetivos e os estímulos desse tipo de treino devem acompanhar as necessidades da modalidade: “É preciso quebrar esse mito vindo do fisiculturismo e entender que o treinamento de força do corredor é distinto”, comenta.

Na prática, essa diferença começa pelo objetivo e aparece em três aspectos da organização:

  • Finalidade: apoiar as demandas da corrida, sem priorizar apenas o aumento da massa muscular.
  • Distribuição: modificar o foco e a carga conforme a fase da preparação.
  • Recuperação: considerar o esforço acumulado nas duas atividades.

Essa variedade também aparece nas capacidades desenvolvidas: “O treino não pode ser voltado somente para a hipertrofia. Ele precisa ter uma variação de estímulos e trabalhar capacidades como potência e resistência”, acrescenta Felipe.

Isso não significa que a hipertrofia seja proibida ou necessariamente prejudicial. Ela pode fazer parte da preparação, desde que não seja trabalhada de maneira isolada e esteja alinhada às demais atividades do corredor.

Essa organização de estímulos em diferentes etapas recebe o nome de periodização de treino. Em um período mais geral, conhecido como fase de base, pode existir mais espaço para desenvolver força e massa muscular. Com a aproximação de uma prova, o volume e as características da musculação podem ser ajustados para acompanhar as demandas mais específicas da corrida.

A sensação de pernas pesadas após uma sessão também não significa que o fortalecimento tenha deixado o corredor permanentemente mais lento. Esse desconforto pode estar relacionado a um estímulo novo, ao excesso de esforço, ao pouco tempo de recuperação ou à proximidade de dois treinos exigentes.

Portanto, o possível prejuízo não está em manter corrida e musculação na mesma rotina, mas na falta de alinhamento entre as atividades. Quando o trabalho acompanha os objetivos da corrida, ele deixa de disputar espaço com a modalidade e passa a integrar a preparação.

Então, como conciliar corrida e musculação?

Para conciliar as duas práticas na rotina, não basta considerar os espaços livres na sua agenda. Também é preciso observar a intensidade de cada treino, já que uma corrida leve, por exemplo, não exige o mesmo esforço que uma sessão intensa de musculação.

A distribuição das sessões ao longo da rotina deve considerar o esforço envolvido em cada uma. Por exemplo, uma corrida leve não exige o mesmo esforço que uma sessão mais intensa, por isso a escolha dos dias não deve considerar apenas os espaços livres da agenda.

Ainda, existe outro ponto que merece atenção na montagem desse calendário: “Quando o preparador físico que faz a planilha de corrida não é o mesmo que orienta a musculação, pode acontecer uma falta de comunicação entre as partes, o que pode causar prejuízos”, alerta Carlos Felipe.

Sem essa troca de informações, uma sessão intensa de musculação pode ser marcada na véspera de um treino mais exigente de corrida, ou o contrário. Nesse caso, o corredor pode iniciar a segunda atividade sem ter se recuperado da primeira, reduzindo a qualidade do treino e dificultando os dias seguintes.

É possível treinar corrida e musculação no mesmo dia?

Sim! Realizar as duas práticas no mesmo dia não representa um problema por si só. Para avaliar essa possibilidade, é necessário considerar o tipo de sessão, o esforço envolvido e o tempo disponível para se recuperar antes do treino seguinte.

Para Felipe, essa organização pode assumir diferentes formatos: “Dependendo do perfil do corredor e da rotina dele, o treino de força pode ser feito no mesmo dia da corrida, porém em turnos opostos. Se correu de manhã, faz a musculação à noite”, exemplifica.

Nesse formato, concentrar as atividades em um único dia pode deixar outro período livre para descanso ou para uma etapa mais leve. Por outro lado, o intervalo de apenas algumas horas pode não ser suficiente para a recuperação muscular completa. 

Isso acontece porque, após o primeiro treino, o corpo ainda precisa repor as reservas de energia, recuperar a musculatura e reduzir a fadiga. Quando o esforço é elevado, esse processo pode se estender além do intervalo entre manhã e noite.

É melhor correr antes ou depois da musculação?

Não existe uma sequência que funcione em todas as situações. Correr depois da musculação não anula automaticamente os resultados do fortalecimento, assim como realizar o treino de força primeiro não significa que a corrida será necessariamente prejudicada. 

O principal efeito imediato da ordem escolhida está na fadiga. Como o corpo ainda não passou pelo esforço da outra sessão, o primeiro treino tende a ser realizado com mais qualidade, enquanto o seguinte pode ser afetado pelo cansaço acumulado.

Por isso, ao definir a ordem entre corrida e musculação, a prioridade do dia pode servir como referência. Se o objetivo principal for a corrida, ela pode vir antes. Se for o fortalecimento, a musculação pode ser realizada primeiro. Essa escolha também deve considerar a intensidade prevista para cada momento e a carga acumulada na semana, pois esses fatores podem aumentar o cansaço e alterar a qualidade dos treinos.

Como identificar e evitar a sobrecarga?

Sentir cansaço após praticar corrida e musculação pode ser esperado, principalmente quando os treinos são mais exigentes. O sinal de alerta deve aparecer quando essa sensação persiste além do período habitual de recuperação e começa a modificar a resposta do corredor nas atividades seguintes.

Carlos Felipe explica que a sobrecarga pode aparecer primeiro no rendimento durante as sessões: “É possível notar que o atleta começa a diminuir o ritmo na corrida e a interromper treinos pela metade”, observa.

Outros sinais que merecem atenção são:

  • Sensação persistente de pernas pesadas.
  • Batimentos cardíacos mais elevados durante um esforço habitual.
  • Dores musculares ou articulares que não melhoram.
  • Desânimo ou frustração frequentes ao tentar cumprir o planejado.

Uma manifestação isolada não confirma que exista sobrecarga ou lesão, pois esses sinais também podem ter outras causas. No entanto, quando eles se repetem, aparecem em conjunto ou pioram com o passar dos dias, a organização das atividades precisa ser reavaliada. 

Quando esses alertas são ignorados e o desequilíbrio entre esforço e recuperação se prolonga, aumenta o risco de overtraining, quadro associado a uma queda persistente no desempenho. Uma das formas de reduzir esse risco é respeitar os ciclos previstos no planejamento: “Um dos erros é quebrar os ciclos, ou seja, aumentar a carga sem respeitar o momento e a orientação do treinador”, pontua Felipe.

Na prática, isso acontece quando o corredor aumenta por conta própria o peso, a distância ou a intensidade, inclui sessões extras ou realiza uma atividade fora do objetivo daquela fase. Essas mudanças ignoram a recuperação prevista e podem elevar o esforço total da semana.

Por outro lado, o planejamento também não deve permanecer inalterado quando o praticante evolui ou passa a apresentar dificuldades. As zonas de treinamento, que são faixas de intensidade utilizadas para orientar o ritmo, podem deixar de representar sua condição atual.

E como ajustar os treinos ao longo do tempo?

Quando o corredor percebe mudanças no rendimento ou na forma como o corpo responde ao estímulo, relatar as mudanças ao profissional permite revisar a programação sem que o corredor precise aumentar ou reduzir o esforço por conta própria. Dessa forma, os ajustes podem ser realizados antes que o cansaço se acumule e comprometa a sua regularidade.

Mais do que decidir qual atividade deve vir primeiro, conciliar corrida e musculação exige acompanhar como o corpo responde ao conjunto dos treinos. Conforme a preparação avança, a distribuição das sessões pode ser modificada para que o fortalecimento apoie a corrida sem prejudicar a constância.

Por isso, o planejamento não deve ser tratado como algo fixo: “O ideal é consultar o profissional que conduz a sua planilha e toda a sua preparação para adaptar tanto uma quanto a outra atividade e não deixar nenhuma delas de lado”, finaliza.

Sobre o profissional

Treinador Carlos Felipe

Carlos Felipe, conhecido como Chokito, é graduado em Educação Física Plena pela União Metropolitana de Educação e Cultura (UNIME) desde 2007. Possui especializações em Treinamento Desportivo, Fisiologia do Exercício e Biomecânica do Movimento, além de MBA em Gestão e Marketing. É idealizador do Método Chokito e treinador e gestor técnico da Runners Club, assessoria esportiva voltada para corredores de diferentes níveis.