Práticas esportivas

Como escolher o tênis mais adequado para o seu tipo de pisada

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 A corrida de rua tem se tornado um esporte popular no mundo todo. Um tanto quanto democrático, tem atraído cada vez mais praticantes de ambos sexos e das mais variadas idades.

Uma dúvida extremamente comum a vários corredores é: qual tênis devo usar para correr? E, muitas vezes, ao entrar em uma loja ou ao iniciar os treinamentos com uma assessoria esportiva pede-se para analisar o tipo de pisada e o tipo de pé do corredor para se concluir qual é o tênis mais indicado para ele e que, consequentemente, vai reduzir a chance do aparecimento de lesões secundárias à corrida. Confesso que eu mesmo já fiz isso várias vezes. Porém isso parece não ser uma verdade tão absoluta assim.

O tipo de pisada não é o principal fator a ser considerado ao se comprar um tênis de corrida. Especialmente para os iniciantes, que, a princípio, sofreriam um maior risco de lesões. Essa é a conclusão de um estudo conduzido por pesquisadores do Departamento de Saúde Pública e de Ciência do Esporte da Universidade de Aarus, na Suécia após acompanhar 927 corredores. Os pesquisadores concluíram que, até 500 quilômetros, todos foram protegidos igualmente contra lesões usando o mesmo calçado. O resultado sinaliza que o tipo de pisada não precisa ser requisito obrigatório na compra do sapato

 A escolha correta do calçado com base no tipo de pé tem sido, há mais de três décadas, considerado um forte fator de prevenção contra contusões. Desde 2009, cientistas de todo o mundo apontam que não há qualquer evidência científica para a prescrição de um tipo de calçado baseado na postura do pé. A investigação liderada pelo cientista Rasmus Nielsen pretende colocar um ponto final na discussão.

Durante cerca de um ano, os pesquisadores acompanharam 927 corredores iniciantes saudáveis. Foram analisados 1.854 pés. Houve casos de voluntários com dois tipos de pisada, uma em cada pé. Todos os voluntários receberam o mesmo modelo de tênis de corrida, indicado para pisada neutra, e foram monitorados por um relógio com GPS para quantificar a distância percorrida em cada treino. De acordo com o artigo publicado no British Journal of Sports Medicine, em um ano, eles correram 326.803 quilômetros e 27% deles sofreram algum tipo de lesão.

 Os resultados das análises de sobrevivência a lesões realizadas nos primeiros 50, 100, 250 e 500 quilômetros de cada corredor não mostraram diferenças estatisticamente significativas entre os tipos de pisadas quando comparadas às de pés neutros. No entanto, os pés pronados apresentaram um número significativamente menor de lesões nos primeiros 1.000 quilômetros de corrida que os neutros. O dado contraria o mito de que corredores com alterações posturais sofreriam um maior risco de lesões e, por esse motivo, necessitariam de um calçado especial.

Segundo Ivan Pacheco, especialista em medicina do esporte e diretor da Sociedade Brasileira

de Medicina do Exercício e do Esporte “Existe uma hiperindicação até mercadológica de uma questão que nem tem suporte na literatura científica. Isso porque a maioria das pessoas tem ‘deformidades’ discretas e muitas delas não necessitam de um tipo de tênis especial, o tênis neutro é o suficiente.

Elas não precisam de um calçado pronador ou supinador porque não são desvios significativos. Quando esse desvio existe, é preciso precisa fazer uma avaliação com o médico antes para ver se há mesmo a necessidade de um tênis especial. Nesse caso, quando o desvio é significativo, ele pode alterar a biomecânica de todo o membro inferior da corrida.

Porém, tem muita gente que tem um pé mais alto e outro mais baixo, mas que são variações normais. Os pés não são totalmente iguais. Eu acredito que existe um exagero mercadológico nessa questão”.

Assim fica uma dica aos corredores: ao invés de se preocuparem tanto com o tipo de pisada, preocupem-se em saber quantos quilômetros seus tênis já percorreram. Procure por programas ou plataformas de treino que tenham o recurso de gravar a quilometragem dos tênis e troque-os sempre que a marca de 500 km estiver se aproximando.

Dr. Ricardo Borges
Médico Nutrólogo
Triatleta, parceiro do Treinus.

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