Qualidade de vida

Como combater vícios que prejudicam a saúde?

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Em meio à pandemia, muita gente desenvolveu algum hábito com o objetivo de amenizar a dificuldade vivida naquele momento. Todavia, para além desses pequenos hábitos, houve também quem desenvolvesse válvulas de escape mais profundas e perigosas denominadas “vícios”. Você já ouviu esse termo? Provavelmente, sim! Embora o conceito possa não estar claro na sua mente, tão importante quanto entender o seu significado é saber como combater vícios que podem causar severos danos à saúde.

Para entender sobre esses pontos, conversamos com a psicóloga especialista na área esportista, Camila Salustiano. “O assunto ainda é considerado tabu por muitas pessoas. Em contrapartida, vemos uma banalização enorme sobre o uso de diversas substâncias lícitas. É fundamental falarmos sobre o tema, educar e informar as pessoas sobre esses estimulantes, suas funções, seus efeitos comportamentais e biológicos. Enfim, sobre tudo que envolve a temática”, explica Salustiano.

O que é vício?

De acordo com a psicóloga, o vício é um mau hábito que interfere de alguma forma no pleno funcionamento da pessoa. “Vícios são hábitos ruins que podem trazer prejuízos. Apesar do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM 5 – ter substituído as categorias de uso, abuso e dependência por uma única categoria “Transtorno Por Uso de Substâncias” com 3 classificações: leve, moderada e grave, acredito que seja importante levarmos em conta essas antigas definições para compreender melhor essa relação. A característica principal é a presença de sintomas fisiológicos, comportamentais e cognitivos e o uso contínuo”, define Camila Salustiano.

Ainda segundo a profissional, para entender o surgimento de um vício é necessário compreender as circunstâncias do primeiro contato com a substância ou comportamento danoso. “É preciso considerar o que levou a pessoa a fazer o uso ou emitir aquele comportamento, ou seja, entender como é essa relação entre pessoa e a substância/comportamento. A partir da compreensão desses contextos além, claro, do componente químico, podemos entender melhor como essa pessoa específica adquire um vício”, diz a psicóloga.

Quais são os tipos mais comuns de vício?

“Alguns fatores precisam ser levados em consideração quando pensamos em quais substâncias são mais utilizadas: o local em que a pessoa está inserida, a sua condição financeira e seu ciclo de amizades. Tudo isso impacta”, frisa a profissional. O vício em bebidas alcoólicas, cigarro e drogas ilícitas são os mais populares, todavia, existem outros tipos. Confira quais são os mais comuns abaixo:

1. Bebidas alcoólicas

Considerado doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o alcoolismo pode comprometer seriamente o bom funcionamento do organismo. Os sintomas vão muito além da intoxicação por álcool. Em geral, as pessoas que são dependentes da bebida alcoólica tendem a beber sozinhas e fora de situações sociais; têm dificuldade para parar depois de começar a beber, demonstram agressividade quando questionados e tentam esconder as evidências do consumo de bebidas alcoólicas.

2. Cigarro

Uma pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) constatou que os brasileiros aumentaram o consumo de cigarro durante a pandemia. Dentre os entrevistados que já eram fumantes, 6,4% aumentaram em até cinco cigarros consumidos por dia, 22,8% somaram mais de 10 por dia, e 5,1%, elevaram o consumo em 20 ou mais cigarros. O consumo em grandes quantidades ou por períodos maiores do que a pessoa pretendia é um dos principais sinais do vício em cigarro.

3. Drogas ilícitas

O vício em drogas é considerado um caso de saúde pública, em razão dos impactos gerados. Isso porque as consequências não atingem apenas aqueles que cercam o dependente, mas a sociedade de forma geral. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em 2020, revelaram que a busca de ajuda nas redes credenciadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por uso de alucinógenos, cresceu 54% na população brasileira

4. Jogos eletrônicos

Abrir mão de se reunir com os amigos, isolar-se da família e apresentar comportamentos agressivos quando não está jogando podem ser sintomas de um caso de vício em jogos eletrônicos. Em fevereiro deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a reconhecer o vício em jogos eletrônicos como doença

5. Medicamentos

Geralmente, a pessoa age de forma a encontrar algo que justifique a sua necessidade de ingerir remédios. Mal-estar gástrico ou uma leve dor de cabeça já são motivos suficientes para os dependentes praticarem a automedicação. Além disso, idas constantes a consultórios médicos para obter receitas também são um indício. 

6. Apostas

Os jogadores compulsivos são incapazes de resistir a apostas, apesar das sérias consequências financeiras ou até mesmo sociais e afetivas. O comportamento dessas pessoas pode estar relacionado a diversos fatores, como busca por dinheiro fácil, a vontade de experimentar sensações extremas e se desafiar. 

7. Comida

Nesse caso, a pessoa consome muito mais do que o organismo precisa como forma de aliviar a ansiedade, por exemplo, e logo em seguida sente-se culpada por ter exagerado. A necessidade de comer compulsivamente pode desencadear um transtorno alimentar. 

Quais são os sinais de uma pessoa viciada?

Fique atento! Uma pessoa viciada apresenta sintomas que podem variar conforme a sua dependência. A seguir, a psicóloga Camila Salustiano listou alguns que são comuns na maioria dos casos:

  • Baixo controle sobre o uso. 
  • Consumo em quantidade maior ou por maior período. 
  • Tentativa ineficaz de regular ou reduzir o uso.
  • Gasto maior de tempo para conseguir a substância, usá-la ou se recuperar dos efeitos. 
  • Tudo o que é feito no dia a dia gira em torno do uso, desejo ou necessidade do uso.
  • Prejuízos sociais, como não conseguir cumprir obrigações acadêmicas, profissionais, domésticas ou interpessoais.
  • Colocar-se em situações de risco à sua própria integridade. 
  • Necessidade de doses cada vez maiores para obter o efeito desejado e da abstinência.

Atletas também podem ter problemas com vício?

Os ex-jogadores de futebol Diego Maradona, Adriano Imperador e Walter Casagrande; o ex-jogador de vôlei Giba e o ex-nadador Michael Phelps são alguns dos atletas que usaram drogas em algum momento da carreira profissional. 

Embora pareça incoerente associar o uso de substâncias químicas e ilícitas ao esporte, existem muitos outros casos de esportistas que já passaram ou passam por esta situação. “Precisamos compreender que o ambiente de alto rendimento pode ser muito estressante. É pressão o tempo inteiro, seus limites são forçados continuamente, nem sempre as relações interpessoais são as melhores e o acontecimento de lesões são frequentes. Enfim, existem diversos motivos pelos quais os atletas podem se envolver com alguma substância”, afirma a psicóloga Camila Salustiano.

Afinal, como combater vícios? É possível?

Esse é um processo longo e árduo, que geralmente é feito em conjunto com o viciado, familiares, amigos e equipe multidisciplinar. Assim, costuma ser a jornada para se livrar de um vício. Então sim, é possível combater vícios! “Existe tratamento, bem como ele pode ser controlado, ou seja, a pessoa pode se manter em abstinência. Entretanto, as chances de recaídas ao longo do processo são grandes e a revisão e ajustamento do tratamento se fazem necessários. A combinação de Terapia Cognitiva Comportamental com medicamentos é uma boa maneira de garantir o sucesso do tratamento. Vale ressaltar que cada caso deve ser analisado individualmente para poder ser feita a melhor escolha possível. O importante é envolver médicos, terapeutas, familiares e mudanças significativas em relação aos ambientes e amizades da pessoa”, esclarece a psicóloga.

Salustiano ainda acrescenta que o objetivo principal dos tratamentos é a busca pela maior redução de danos possível para que a pessoa consiga ter uma vida funcional equilibrada e sem grandes prejuízos. “A prevenção é sempre o melhor caminho. Existem programas de prevenção ao uso de substâncias que são muito eficientes e importantes para a população em geral”, finaliza. Inclusive, muitos desses programas são gratuitos e oferecidos pelos governos estaduais.

Sobre a profissional

Psicóloga Camila Salustiano

Camila Salustiano é psicóloga clínica e do esporte com formação em Dependência Química e especialização em Terapia Cognitiva Comportamental na Infância e Adolescência. Ela também é facilitadora do programa Educação Emocional Positiva e membro fundadora da Associação de Psicologia do Esporte do Rio de Janeiro (ASSOPERJ). Apaixonada por praia e natureza, atleta amadora e amante de animais, Camila é uma lutadora incansável pela promoção da saúde mental e cuidado integral. Siga @camilasalustianopsi no Instagram!

Referências 

Atendimento a pessoas com transtornos mentais por uso de álcool e drogas aumenta 12% no SUS

Brasileiros têm bebido e fumado mais durante isolamento

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