Práticas esportivas

Como o ciclo hormonal afeta o desempenho esportivo do atleta?

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Já parou para pensar que assim como o seu treino tem fases, o seu corpo também tem? No ciclo hormonal, tanto homens quanto mulheres encontram períodos de maior e menor adaptação para as atividades físicas e até estilos de treinos mais indicados. Portanto, para alcançar a melhor performance é preciso entender um pouco mais sobre cada momento do seu corpo e qual prática deve ser realizada para otimizar os resultados.

O que é o ciclo hormonal?

De acordo com o Dr. Gustavo Rezende de Mello, médico ortopedista e especialista em medicina do exercício e do esporte, os anos reprodutivos de uma mulher caracterizam-se por mudanças rítmicas mensais nas taxas de secreção dos hormônios femininos. Este padrão é denominado ciclo sexual feminino. No homem, o ciclo natural de hormônios é diário, entretanto, a prática de atividades físicas pode levar a picos durante o dia, variando de organismo para organismo, mostrando que esse não é um ciclo completamente fechado.

O ciclo menstrual pode ser dividido em quatro fases biológicas: a fase menstrual, fase pós-menstrual, fase ovulatória e fase pós-ovulatória. Cada fase é caracterizada pela liberação dos hormônios folículos estimulantes e luteinizantes alternadamente, assim como há a secreção da progesterona e estrogênio. Já para os homens, o principal hormônio é a testosterona, cujo nível sérico sofre alterações durante as horas do dia, tendo seu pico por volta das 6 h e 8 h da manhã, e um declínio de até 35% durante o dia, voltando a aumentar novamente pelo meio da noite.

Ciclo hormonal e desempenho esportivo

Dependendo de cada fase do ciclo hormonal, há também um impacto no desempenho esportivo. Para Gustavo, cada corpo responde de uma forma, mas tanto homens quanto mulheres sentem a diferença.  “O ciclo hormonal masculino responde diferente no desempenho esportivo, de acordo com o nível de treinamento de cada indivíduo. A testosterona parece aumentar após sessões curtas e intensas de treinamento, principalmente de força, assim como o cortisol parece aumentar com sessões longas e intensas de treinamento, principalmente aeróbio, desse modo, o ciclo hormonal masculino pode sofrer alterações agudas decorrentes do treino.”, explica.

No caso das mulheres, os hormônios são outros e, portanto, os impactos também se diferem. “Os hormônios catabólicos (progesterona e cortisol) apresentam maiores concentrações plasmáticas na fase lútea, ou seja, pós-menstrual, enquanto a testosterona permanece estável durante praticamente todo o ciclo menstrual. No entanto, algumas mulheres podem apresentar diminuição da performance por fatores como: níveis de motivação, síndrome de tensão pré-menstrual (TPM) e dismenorreia”, complementa o profissional que também ressalta a variação no caso dos homens, que possui maior influência na performance à medida que os níveis de testosterona diminuem, em média a partir dos 35 a 40 anos, com declínio em torno de 1% ao ano. Sendo assim, com a baixa de testosterona pode ocorrer diminuição de força, pior adaptação ao treino e diminuição de massa muscular.

Dicas e contraindicações

Gustavo reforça que não há contraindicações absolutas em relação ao treino nas diversas fases do ciclo, mas existem, sim, pontos de atenção. “O ciclo menstrual e o rendimento esportivo obedecem a um caráter individual, assim como algumas mulheres podem se sentir desconfortáveis e apresentar baixo rendimento durante os treinos, para outras pode não ter influência.”, conta.

Em contraponto, o médico cita que alguns artigos estudam a possibilidade de haver um maior número de lesões do ligamento cruzado anterior nas mulheres durante a fase ovulatória do seu ciclo menstrual. Segundo ele, é provável que a alteração no nível dos hormônios interfira não só a histologia ligamentar como também a biomecânica corporal, deixando a mulher mais sujeita a esse tipo de lesão. 

Mas para além das contraindicações, há também diversas dicas de como treinar melhor em cada fase do ciclo. “Alguns estudos observaram em parte das mulheres,  um aumento de força na fase ovulatória, provavelmente relacionada às grandes quantidades de estrogênio e progesterona que ocorrem durante esta fase.”, conta Gustavo, que indica treinos personalizados tanto para homens, quanto para mulheres, de acordo com a especificidade de cada um.

Máximo de performance em todas as fases do ciclo

Para alcançar o auge do desempenho esportivo, alguns pontos-chaves devem ser seguidos à risca. De acordo com Gustavo, no caso das mulheres, é preciso aproveitar o aumento do estrogênio do período pós-menstrual e intensificar os treinos de velocidade ou mais longos. Pois é nessa época que se tem mais facilidade de superar limites e gerar maior resposta adaptativa ao treino. Já no período ovulatório e pós-ovulatório, deve-se concentrar em um ritmo firme, que seja possível de sustentar por bastante tempo. Enquanto no período pré-menstrual o melhor é estipular treinos com baixa intensidade de 40 minutos a 1 hora de duração.

Ainda sobre as mulheres, o profissional afirma que alguns estudos têm analisado o efeito das oscilações hormonais decorrentes do ciclo menstrual sobre o desempenho físico. No entanto, a literatura apresenta resultados controversos. Enquanto algumas evidências demonstram não existir diferenças significativas em aspectos fisiológicos (consumo de O2, limiar de lactato, volume plasmático, concentração de hemoglobina e ventilação) nas 4 fases do ciclo, outros estudos verificaram diferenças nas concentrações hormonais, sem alteração na força muscular entre as fases. “Lembrando que mulheres diferentes, possuem resposta a treinos diferentes, e principalmente, se estão em uso de anticoncepcional, possuem menstruação irregular ou possuem síndrome do ovário policístico. Cabe ao treinador avaliar individualmente, os melhores momentos para intensificar ou reduzir os treinos de cada atleta.”, indica o ortopedista.

Já para os homens, também existem variações de treino durante o ciclo hormonal e tais mudanças ocorrem principalmente no que diz respeito aos horários da prática. “Pressupõe-se que o melhor horário para o treinamento específico de força seja pelo final da tarde e início da noite, onde os níveis de cortisol aumentam em menor grau e a testosterona em maior grau, proporcionando um bom estado para o anabolismo muscular.”, finaliza.

Conheça o profissional

Médica Gustavo RezendeGustavo Rezende de Mello é médico ortopedista, pós-graduado em Medicina do Exercício e Esporte, pós-graduando em Nutrição, Metabolismo e Fisiologia do Exercício. Apaixonado por esportes de aventura, ciclismo e musculação, trabalha com emagrecimento, hipertrofia muscular e performance atendendo a todos os públicos: sedentários, desportistas ou atletas.

Referências

Efeito das diferentes fases do ciclo menstrual no desempenho da força muscular em 10RM

Influência das diferentes fases do ciclo menstrual na flexibilidade de mulheres jovens

Alteração da relação testosterona: cortisol induzida pelo treinamento de força em mulheres

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