Qualidade de vida

O que são as canetas emagrecedoras e por que elas se popularizaram tão rápido?

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Nos últimos meses, as canetas emagrecedoras se popularizaram no cotidiano de muitos brasileiros, passando a ser tratadas como um produto voltado para a perda de peso. A divulgação constante nas redes sociais e os relatos de quem já utilizou ajudaram a reforçar seu consumo para além dos consultórios médicos.

No entanto, o que pouco se discute é que esses medicamentos não surgiram com esse objetivo, e o uso inadequado ou sem acompanhamento pode trazer riscos à saúde. Por isso, convidamos o médico gastroenterologista Mauro Jacomé para explicar o que são essas canetas e por que estão tão populares entre as pessoas. Acompanhe!

O que são as canetas emagrecedoras e para que elas servem?

As chamadas canetas emagrecedoras são medicamentos injetáveis desenvolvidos, ainda no início dos anos 2000, para o tratamento do diabetes tipo 2

Uma das primeiras canetas a ganhar destaque foi uma à base de semaglutida. No Brasil, o medicamento teve o registro aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2022, sendo indicado como complemento à alimentação equilibrada e à prática de atividade física, ou em associação a outros medicamentos antidiabéticos.

Porém, de acordo com o gastroenterologista Dr. Mauro Jacomé, com o avanço de estudos clínicos, ficou evidente que esses medicamentos iam além do controle do açúcar no sangue. 

“Originalmente, elas foram criadas para o controle metabólico e glicêmico de pacientes diabéticos, mas percebeu-se o emagrecimento como um efeito terapêutico. Com isso, elas acabaram chegando ao mercado com esse segundo propósito”, explica.

A partir disso, outras versões começaram a ser desenvolvidas e aprovadas. O aval da Anvisa para canetas com indicação direta para obesidade ocorreu a partir de 2023, ampliando o acesso a esse tipo de tratamento. Inclusive, em 2025, opções nacionais passaram a integrar esse cenário. 

Apesar da popularização, vale ressaltar que as canetas não foram criadas para uso estético, já que essa não é sua finalidade. Elas fazem parte de um tratamento médico voltado ao diabetes, porém tornou-se um produto para emagrecimento que ajuda pessoas que se encontram em sobrepeso ou obesidade mórbida.

Como funcionam as canetas emagrecedoras no organismo?

Basicamente, as canetas emagrecedoras atuam nos hormônios que regulam a fome, a saciedade e a resposta do corpo aos alimentos, sendo um deles o GLP-1. 

Segundo o doutor, elas são muito eficazes para a perda de peso, já que atuam no eixo intestino-cérebro e, como resultado, podem:

  • Promover a saciedade.
  • Retardar o esvaziamento gástrico.
  • Reduzir a ingestão calórica.

Em resumo, a combinação desses efeitos faz com que a pessoa sinta menos fome, coma menores quantidades e permaneça saciada por mais tempo. Como consequência, há uma redução espontânea do consumo de alimentos ao longo do dia, o que favorece a perda de peso de forma progressiva.

Quais são as principais canetas encontradas no mercado?

Jacomé explica que, embora o mecanismo geral seja parecido, nem todas as canetas emagrecedoras funcionam da mesma forma. “Existem vários ativos diferentes, sendo a semaglutida e a tirzepatida os mais famosos. Apesar da atuação parecida, cada fármaco atua de uma maneira diferente”, destaca.

Essas diferenças reforçam que a escolha da caneta emagrecedora deve considerar o perfil do paciente, a indicação clínica e os objetivos do tratamento – e não apenas a promessa de resultados rápidos.

Para fins ilustrativos, confira os detalhes de cada tipo de caneta emagrecedora presente no mercado:

Semaglutida

A semaglutida é um dos princípios ativos mais conhecidos das canetas emagrecedoras e está presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy. A aplicação é feita uma vez por semana, o que facilita a adesão ao tratamento, e seus efeitos no controle do apetite e do consumo alimentar ajudaram a torná-la uma das opções mais populares nos últimos anos.

No entanto, o gastroenterologista alerta que, durante o uso, alguns pacientes podem apresentar efeitos colaterais como náuseas, vômitos, diarreia, constipação, sensação de estômago cheio e redução do apetite.

Tirzepatida

A tirzepatida é o princípio ativo da caneta emagrecedora mais procurada no momento, a Mounjaro. Ela ganhou destaque por apresentar uma ação mais potente no controle do peso em comparação a outras opções. Assim como a semaglutida, sua aplicação costuma ser semanal, mas os resultados tendem a ser mais expressivos em alguns pacientes, o que explica o interesse crescente por ela. 

Em relação aos efeitos colaterais, os sintomas observados são semelhantes aos de outras canetas, como náuseas, diarreia e constipação, porém, em muitos casos, tendem a ocorrer de forma mais leve ou até mesmo não aparecer.

Liraglutida

A liraglutida está presente em canetas como a Saxenda e foi uma das primeiras opções utilizadas no tratamento da obesidade. Diferente das demais, seu uso exige aplicação diária, o que pode impactar a rotina de alguns pacientes. Seu efeito costuma ser mais moderado, sendo indicada em situações específicas, conforme avaliação individual e objetivos do tratamento.

Aqui, os efeitos colaterais são iguais aos das outras canetas, especialmente no início do uso, variando conforme a adaptação de cada organismo.

Atenção para as contraindicações das canetas!

Apesar de estarem cada vez mais presentes na vida da população brasileira, as canetas emagrecedoras não são indicadas de forma indiscriminada. Também, a compra só deve ser feita com receita, sendo necessário um aval médico.

O gastroenterologista alerta para os riscos envolvidos no uso inadequado desses medicamentos, que não devem ser utilizados de forma alguma por pessoas com:

  • Histórico de câncer medular de tireoide.
  • Síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN 2).
  • Pancreatite ativa.
  • Gestantes.

Possíveis riscos do uso sem acompanhamento médico

Atualmente, esses medicamentos estão populares na internet, e muitas figuras públicas compartilham o uso das canetas em formato de “protocolos”. Ainda, há a crescente do uso clandestino, sem orientação médica.

Para Jacomé, a falta de acompanhamento compromete não apenas a segurança, mas também a eficácia do tratamento. Alguns dos principais riscos citados por ele são:

  • Risco de desidratação.
  • Distúrbios eletrolíticos.
  • Hipoglicemia.
  • Perda de massa magra.
  • Uso inadequado da dose. 

Diante desse aumento no uso indiscriminado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária passou a exigir, desde junho de 2025, a retenção da receita médica para a compra dessas medicações no Brasil. A medida busca proteger a saúde da população, especialmente após a observação de um número elevado de eventos adversos associados ao uso fora das indicações aprovadas.

Atenção ao uso desses produtos para fins estéticos!

Além dos riscos imediatos, Jacomé também chama atenção para a banalização do uso com fins estéticos. É uma distorção da indicação médica, que compromete a segurança e a saúde do paciente. A utilização das canetas são tratamentos sérios, que existem com acompanhamento de médicos, nutricionistas e outros especialistas que avaliam cada caso e estudam a melhor possibilidade”, afirma. 

Ainda segundo ele, recorrer às canetas apenas para perder alguns quilos rapidamente ignora o fato de que elas fazem parte de um tratamento estruturado, e não de uma solução momentânea e/ou milagrosa.

Outro ponto importante é o que acontece após a interrupção do uso sem planejamento. O gastroenterologista explica que, ao retirar o medicamento, a sensação de saciedade diminui e a pessoa tende a voltar a comer mais do que gasta, o que ajuda a entender por que o efeito rebote é comum nesses casos.

Por isso, mais do que buscar resultados rápidos, o uso das canetas emagrecedoras precisa estar inserido em um acompanhamento médico contínuo, capaz de avaliar riscos e garantir que o tratamento faça sentido na sua realidade!

E quais seriam as alternativas para emagrecer, sem comprometer a saúde? 

Apesar dos resultados expressivos que chamam a atenção de muitos, as canetas emagrecedoras não devem ser definidas como um caminho definitivo para o emagrecimento. Isso porque o uso desses medicamentos faz parte de um tratamento contínuo, que depende da resposta individual de cada paciente e da necessidade de manter hábitos saudáveis ao longo do tempo.

Para o gastroenterologista, cada caso é um caso, ou seja, não existe uma lógica de uso pontual ou temporário quando o objetivo é sustentar a perda de peso. “O tratamento é crônico, com duração variável conforme resposta clínica e manutenção dos resultados”, explica. 

Para se ter uma ideia, uma pesquisa publicada na revista científica British Medical Journal (2026) indicou que pessoas que interrompem o uso de canetas emagrecedoras podem recuperar o peso perdido até quatro vezes mais rápido do que aquelas que abandonam dietas e atividades físicas.

Nesse contexto, fica claro que o emagrecimento sustentável não depende apenas do medicamento, mas de uma construção diária que envolve escolhas simples e possíveis dentro da sua rotina, como:

Por fim, o médico reforça que responsabilidade e acompanhamento fazem toda a diferença para alcançar os resultados desejados. Saúde é coisa séria! Mesmo que muitas pessoas tenham a estética como foco quando procuram as canetas emagrecedoras, não podemos esquecer que estamos falando de medicamentos. Dessa forma, busque sempre orientação médica para ter um tratamento que faça sentido para a sua saúde como um todo”, finaliza.

Sobre o profissional

Gastroenterologista Mauro Jacomé

Mauro Jacomé é médico e cirurgião geral, além de ser especialista em endoscopia digestiva e gastroenterologia. Também, atua em procedimentos voltados ao emagrecimento, como a colocação de balão intragástrico. Com mais de 30 anos de experiência na medicina, dedica-se há cerca de duas décadas à Clínica Cronos, em Belo Horizonte-MG, projeto que idealizou com o propósito de promover qualidade de vida e cuidado integral aos seus pacientes.

Referências

Nova opção terapêutica para tratamento de diabetes mellitus

O território inexplorado dos novos medicamentos para obesidade em usuários sem obesidade: uma perspectiva sociomédica 

Reaproveitamento de peso após a suspensão de medicamentos para controle de peso: revisão sistemática e meta-análise