Práticas esportivas

Como a música pode ser uma aliada durante a atividade física?

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Você já percebeu como a relação entre atividade física e música está cada vez mais presente na rotina de quem pratica exercícios? Seja em academias, estúdios ou até nas ruas, a trilha sonora passou a integrar o momento do treino, e essa escolha não é coincidência.

Isso porque, por mais comum que pareça, a influência da música durante a prática esportiva vai além da ambientação. Ela pode impactar motivação, percepção de esforço e até o desempenho físico ao longo dos exercícios.

Enquanto em academias predominam ritmos mais acelerados, que acompanham exercícios de maior intensidade, praticantes de modalidades como pilates e yoga costumam optar por melodias mais suaves, alinhadas a movimentos controlados e respiração consciente. 

Diante desse cenário, para entender qual é o real papel da música durante os treinos e em quais situações ela pode ajudar (ou até atrapalhar), convidamos o treinador Marcelo Mayer, da assessoria Guana Trainer, para esclarecer os principais pontos sobre o assunto.

Qual é a relação entre atividade física e música?

Para muitas pessoas, ouvir música durante o treino vai além de um simples hábito. O recurso também é utilizado como forma de aumentar a motivação, melhorar o foco e deixar a experiência mais prazerosa.

De acordo com o treinador Marcelo Mayer, esse impacto acontece principalmente no aspecto mental, que, consequentemente, influencia o físico: “A música alia o benefício da atividade ao prazer de escutar algo que a pessoa gosta. Isso aumenta a motivação e ajuda na constância, especialmente para iniciantes no mundo esportivo”, explica.

Vale destacar que essa percepção também é respaldada por estudos científicos. Um exemplo é o da pesquisa Efeitos da Música no Desempenho de uma Atividade Física (2010), desenvolvida pela Universidade Estadual Paulista, que apontou que a presença de estímulos sonoros influencia diretamente o desempenho esportivo ao decorrer de uma atividade.

Para se ter uma ideia, durante um teste para a pesquisa citada, atletas correram o mesmo percurso em três situações diferentes: sem música, com uma de sua preferência e com outra opção não preferida. Os resultados mostraram que o recurso, de forma geral, teve impacto positivo na performance, principalmente quando o ritmo e a intensidade da música eram compatíveis com a atividade realizada.

Além disso, a trilha sonora também pode interferir na percepção de esforço. Para Mayer, em determinados momentos, ela ajuda a reduzir o foco no desconforto físico: “Quando a música está tocando, a pessoa pode deixar de prestar tanta atenção na fadiga. Isso estimula a mente e favorece a continuidade do treino”, destaca.

Ou seja, mais do que preencher o ambiente, a música é utilizada por muitos como um recurso estratégico, influenciando a motivação, a resiliência mental, a percepção de esforço e até a organização dos movimentos realizados durante a prática.

5 benefícios de utilizar a música durante os treinos

No cotidiano de quem treina, os efeitos da relação entre atividade física e música se manifestam de diferentes formas. Para o treinador Marcelo Mayer, o impacto depende do jeito como o recurso é incorporado à rotina de exercícios. Quando utilizadas de maneira estratégica, as trilhas sonoras podem contribuir para diferentes aspectos da prática esportiva. 

Para fins ilustrativos, veja a seguir 5 benefícios de ouvir música durante os treinos:

1. Aumenta a motivação para iniciar e manter a prática

Um dos efeitos mais perceptíveis de ouvir música está no estímulo para começar a atividade, especialmente em dias de menor disposição. Segundo o treinador, ela funciona como um incentivo extra durante a prática: “A pessoa escolhe uma música que gosta e isso traz uma motivação a mais”, afirma.

Esse impacto não se limita ao momento inicial, já que o prazer proporcionado pelas trilhas sonoras também pode influenciar a regularidade nos treinos.

2. Ajuda a organizar o ritmo e a cadência dos movimentos

De acordo com Mayer, a batida da música pode funcionar como uma referência externa para ajudar a manter a linearidade do movimento em certas atividades. Como exemplo, ele cita que músicas com uma determinada frequência de batidas por minuto, em geral, entre 160 e 170 (BPM), podem auxiliar no controle do ritmo durante treinos contínuos, principalmente no caso de atletas amadores.

Quando alinhada ao exercício, a música contribui para um padrão mais estável dos movimentos realizados, favorecendo regularidade e fluidez da prática.

3. Reduz a percepção de dor e fadiga

Em modalidades que exigem maior esforço físico, como corrida de rua ou treino HIIT, é natural que o corpo atinja mais rapidamente estados de cansaço e desconforto. Nesses casos, o uso de uma playlist com suas músicas preferidas pode ajudar a camuflar a percepção de dores e fadiga.

Para o treinador, em alguns casos, a música pode contribuir para reduzir a percepção de esforço durante atividades mais intensas, já que o praticante deixa de concentrar totalmente a atenção no desgaste físico: “Ela funciona como um estímulo para que a mente não foque tanto na falta de fôlego ou no corpo cansado. Aqui, é importante apenas se atentar aos excessos para que não se deixe de notar totalmente os sinais do corpo”, ressalta.

Vale dizer que o efeito acontece principalmente no aspecto psicológico, fazendo com que o praticante se disperse das sensações causadas pelo movimento e lide melhor com as demandas do exercício.

4. Melhora o humor e torna o treino mais prazeroso

Outro benefício da relação entre atividade física e música está no impacto direto sobre o estado emocional do praticante. Quando alinhada ao gosto pessoal, pode aumentar a sensação de alegria e prazer, reduzindo o estresse e tornando o treino mais leve e envolvente.

O profissional destaca que essa vantagem aparece especialmente em situações que o atleta está desestimulado: “Em momentos em que o aluno está tendo uma queda mental, como o desânimo, a música ajuda na resiliência, podendo ser um combustível emocional”, afirma.

Dessa forma, as melodias funcionam como um apoio psicológico, contribuindo para uma experiência mais positiva!

5. Amplia a socialização durante a prática

Dentro da relação entre atividade física e música, o som também pode atuar como um facilitador social. Em aulas coletivas, o ritmo compartilhado estimula movimentos sincronizados, favorece interações espontâneas e fortalece a sensação de pertencimento entre os participantes.

Quando todos acompanham a mesma batida, cria-se um ambiente mais integrado e colaborativo, no qual o treino deixa de ser apenas uma experiência individual e passa a se tornar uma vivência coletiva. Esse alinhamento sonoro pode facilitar a criação de vínculos, aumentar o engajamento e tornar o momento mais motivador.

Mas, afinal, em quais momentos a música pode se tornar um problema?

Apesar de atuar como aliada em muitos momentos, a combinação entre atividade física e música também pode se tornar um problema. Na avaliação do profissional, como o aspecto psicológico influencia diretamente o físico, o excesso de estímulo pode fazer com que o praticante deixe de perceber sinais importantes do próprio corpo.

Dependendo do contexto, o estímulo sonoro pode interferir em alguns fatores, como: 

  • Percepção corporal.
  • Execução técnica.
  • Segurança do atleta.

Risco de ultrapassar os limites

Outro ponto levantado pelo treinador envolve a intensidade dos exercícios. A motivação alta pode levar o atleta a arriscar além dos seus limites: “Às vezes, a percepção de esforço fica comprometida e a pessoa ultrapassa o ritmo adequado. Posteriormente, gera mais fadiga, perde o controle da respiração e pode aumentar os riscos de lesões”, alerta.

Interferência na técnica e na execução

Exercícios que exigem controle de movimento, postura e cadência, como musculação com carga mais elevada ou pilates, podem ser prejudicados quando a música passa a competir com a atenção do praticante.

Marcelo explica que é necessário ter maturidade para utilizar o recurso sem perder o foco total do treino: “A pessoa precisa escutar a música sem se desligar do que está sendo proposto”, indica.

Sendo assim, é necessário redobrar a atenção quando estiver utilizando essa ferramenta, pois o mesmo estímulo que motiva também pode distrair, dependendo da forma como é aplicado.

Atenção redobrada em ambientes externos 

Em atividades que são realizadas ao ar livre, como corrida ou ciclismo, a segurança se torna ainda mais relevante. Diferentemente de um espaço controlado, Marcelo Mayer explica que a rua exige atenção constante a sons e movimentações ao redor: “Se você estiver correndo na rua com o volume muito alto, pode deixar de escutar alertas importantes, como buzina ou um ciclista se aproximando, o que aumenta o risco de acidentes”, reforça.

A orientação é manter o volume moderado e, se possível, utilizar apenas um lado do fone ou optar por tecnologias de condução óssea que permitam ouvir os sons externos.

ATENÇÃO: Antes de participar de competições, é fundamental verificar o regulamento da prova. Algumas organizações podem restringir ou até mesmo proibir o uso de fones de ouvido por questões de segurança, especialmente para garantir que o atleta esteja atento às orientações da equipe técnica e aos demais competidores durante o percurso.

Por fim, atividade física e música podem ser grandes aliadas quando utilizadas de forma consciente e estratégica, contribuindo para a motivação, a constância e o prazer durante o treino. No entanto, o uso do recurso exige equilíbrio e atenção aos próprios limites: “A música pode ajudar muito, mas não pode se tornar uma muleta para o atleta”, finaliza.

Sobre o profissional

Treinador Marcelo Mayer

Marcelo Mayer é gestor e diretor técnico da assessoria esportiva Guana Trainer. Bacharel e licenciado em Educação Física pela UFMG, possui especialização em Medicina do Esporte e da Atividade Física, além de Administração e Marketing Esportivo. Corredor há 30 anos, já completou 12 maratonas e 4 triathlons. O profissional atua com o propósito de promover experiências positivas por meio do esporte, incentivando uma vida mais ativa e saudável.

Referência

Efeitos da música no desempenho de uma atividade física