Durante muito tempo, Ariadne Villms precisou conviver com dores, limitações e cirurgias que marcaram diferentes fases da sua vida. Antes das medalhas, competições e pódios, existia uma rotina atravessada por recuperações lentas, incertezas e a sensação constante de precisar ser mais forte do que deveria.
Mais do que uma modalidade, a natação surgiu como parte do processo de recuperação física e emocional da atleta. Aos poucos, aquilo que começou por recomendação médica se transformou em refúgio, autonomia e propósito: “Eu continuei nadando porque era o único lugar em que eu não sentia dor e me encontrava”, conta.
Hoje, após 13 cirurgias, uma prótese no quadril e diversos campeonatos disputados, ela construiu uma relação com o esporte que vai muito além da performance. Entre treinos, recomeços e desafios constantes, ela encontrou uma forma de recuperar não apenas os movimentos, mas também a própria identidade!
Uma infância e juventude marcadas por cirurgias, dores e limitações
A relação de Ariadne Villms com hospitais, cirurgias e limitações físicas começou ainda nos primeiros anos de vida. Diferente de muitos atletas que descobriram o esporte apenas mais tarde, a nadadora cresceu convivendo com uma condição rara que exigiu acompanhamento constante desde a infância.
Em resumo, ela nasceu com luxação congênita e displasia coxofemoral, condição em que o quadril nasce deslocado do fêmur. No caso, a situação era ainda mais delicada, já que nasceu sem a cabeça do fêmur.
Ainda criança, precisou passar pelos primeiros procedimentos cirúrgicos, iniciando uma trajetória médica que atravessaria diferentes fases da sua vida: “O médico teve que tirar osso do meu quadril e modelar uma cabeça do fêmur provisória para eu poder viver”, descreve.
A primeira cirurgia aconteceu quando ela tinha apenas dois anos de idade. Depois disso, vieram diversos outros procedimentos ao longo da infância. Mesmo diante desse cenário, o esporte já fazia parte da sua rotina desde cedo.
Próximo de sua casa, uma universidade oferecia projetos gratuitos para crianças, ambiente onde Ariadne teve os primeiros contatos com diferentes modalidades. Foi ali que ela aprendeu a nadar, além de praticar vôlei, basquete e futebol.
No entanto, com o passar dos anos, os hábitos esportivos deixaram de ser prioridade. Já na vida adulta, apesar de ainda jogar futebol ocasionalmente, ela passou a viver uma rotina mais sedentária, sem imaginar que, pouco tempo depois, precisaria voltar a enfrentar um processo que parecia ter ficado no passado.
O retorno de um período muito difícil para Ariadne Villms
Durante o período em que trabalhava em uma imobiliária, entre 2016 e 2017, as dores passaram a fazer parte da rotina de Ariadne Villms de maneira mais intensa. A permanência constante sentada, somada ao sobrepeso e à pouca movimentação, acabou acelerando o desgaste na região do quadril e do fêmur.
Na época, o retorno aos consultórios médicos trouxe uma notícia difícil de assimilar. Após anos sem precisar enfrentar procedimentos invasivos, a atleta descobriu que teria que voltar a operar: “Na época foi um choque. Depois de tantas cirurgias, eu teria que voltar a viver tudo aquilo”, relata.
Em 2018, ela passou pela primeira cirurgia da fase adulta, que, basicamente, consistia em serrar o fêmur e inserir uma placa para corrigir a estrutura óssea. Apesar do procedimento ter sido um sucesso, a recuperação foi muito mais difícil do que ela imaginava.
Sem uma rotina muito ativa até então, o processo pós-cirúrgico se tornou lento e desgastante. Durante meses, Ariadne precisou permanecer em casa, limitada fisicamente: “Passei dois, três meses em casa sem poder sair, sem fazer nada. Aquilo foi angustiante e muito triste”, explica.
Cerca de um ano depois, veio uma nova notícia difícil: seria necessário realizar outra cirurgia semelhante, desta vez em outra região da perna. Além das dores físicas, o período também trouxe impactos emocionais profundos.
O isolamento e a sensação constante de perder a própria autonomia acabaram desencadeando uma fase emocional delicada: “Foi uma das piores fases da minha vida. Eu não podia fazer nada, não podia ver ninguém. Eu chorava bastante, vivia uma depressão silenciosa e queria ter minha vida de volta!”, lembra.
Ainda assim, foi justamente em meio a esse cenário que Ariadne começou, aos poucos, a mudar sua forma de enxergar a própria vida. As experiências vividas durante as cirurgias fizeram com que ela passasse a priorizar mais a própria saúde, seus limites e aquilo que realmente fazia sentido para sua realidade.
Imagem 1 — Atleta Ariadne Villms
Fonte: Arquivo Pessoal
Quando a natação deixou de ser apenas recuperação e virou recomeço!
Em meio a uma rotina marcada por dificuldades e um processo de recuperação desgastante, Ariadne Villms encontrou na água um espaço onde, pela primeira vez em muito tempo, conseguia aliviar não apenas as dores físicas, mas também o peso emocional que carregava naquele período.
Inicialmente, a natação surgiu como uma recomendação médica, já que a prática poderia acelerar sua recuperação e reduzir os impactos causados pelas limitações no quadril e no fêmur.
Como já tinha contato com a modalidade desde a infância, o retorno para as piscinas aconteceu de forma natural. Assim que retirou os pontos da primeira cirurgia, ela recebeu autorização médica para voltar às piscinas e decidiu continuar nadando justamente pelo alívio que encontrava durante os treinos: “Voltei para a água porque era o único lugar onde eu não sentia dor. Aos poucos percebi que aquilo me fazia bem não só fisicamente, mas mentalmente também”, relata.
Dentro da água, as limitações físicas realmente pareciam diminuir. Mesmo utilizando uma placa na perna e convivendo com dores constantes fora da piscina, era durante os treinos que ela conseguia sentir novamente certa liberdade nos movimentos.
A segunda cirurgia, realizada em 2019, reforçou ainda mais a conexão com a natação. Mais uma vez, Ariadne retomou os treinos logo após a retirada dos pontos e percebeu que o esporte começava a provocar mudanças que iam além da recuperação física.
Pouco a pouco, aquilo que começou apenas como parte do tratamento passou a ocupar um espaço central na sua rotina. A evolução dentro da água despertou nela a vontade de buscar treinamentos mais específicos e levar a modalidade mais a sério. Nesse período, a atleta mergulhou de vez em uma fase intensa de exercícios: “Eu ia para a academia de manhã, nadava à tarde e de noite realizava novamente treinos de força. Era uma realidade completamente insana!”, lembra.
Ao mesmo tempo em que o corpo respondia aos estímulos dos treinos, a natação também passou a transformar sua relação com a própria vida. Depois de um período marcado por isolamento, dores e limitações, o esporte devolveu autonomia, disciplina e uma nova perspectiva sobre si mesma.
Com isso, no mesmo ano, ela participou de um campeonato interno na universidade onde treinava e começou a enxergar a modalidade de outra forma. Além de acompanhar mais de perto esse universo, ela percebeu que talvez aquele ambiente também pudesse ser o seu lugar.
Porém, pouco tempo depois, a pandemia da Covid-19 interrompeu temporariamente seus planos – mesmo assim, parar nunca foi uma opção! Então, durante o período de isolamento, Ariadne improvisou uma estrutura em casa para continuar treinando e encontrou maneiras de manter a rotina ativa: “Eu montei uma piscina grande em casa e continuei nadando com corda amarrada na cintura. Dei um jeito de não parar!”, recorda.
Das primeiras competições à descoberta de um novo propósito no esporte
Com a retomada gradual das atividades após a pandemia, no final de 2020, Ariadne Villms conheceu o técnico Leonardo Sumida, responsável por acompanhar sua evolução dentro da modalidade e moldar seus primeiros passos nas provas da categoria master.
Foi treinando com ele que a atleta participou, em 2021, do primeiro campeonato da sua trajetória competitiva: o Campeonato Sul-Americano, realizado no Rio de Janeiro. Mesmo ainda no início da caminhada no esporte, ela conquistou suas primeiras medalhas nas provas de 400m e 800m livre, resultados que marcaram uma nova virada de chave em sua vida!
Mais do que os pódios e os resultados conquistados, a atleta encontrou na natação, categoria master, um ambiente diferente do que imaginava. Ao contrário da ideia de rivalidade, ela percebeu um cenário voltado à evolução individual e ao incentivo coletivo: “Eu vi que a questão da natação, principalmente a master, é muito sobre você competir contra você mesmo. É o seu tempo, a sua saúde, melhorar a cada dia e não ser mais rápido que quem está do seu lado. E eu vi que ali eu podia ir muito além!”, conta.
A partir daquele momento, ela passou a participar de competições em diferentes cidades do Brasil, acumulando experiências, medalhas e novos desafios dentro da modalidade. “Eu fui para vários campeonatos brasileiros em diversas cidades, principalmente no Nordeste, no Rio, em Curitiba, além dos campeonatos estaduais e meetings de Santa Catarina e Paraná. Sempre conseguindo pódios, primeiro, segundo e terceiro lugar”, lembra.
Ao mesmo tempo em que evoluía dentro da piscina, a natação também começava a transformar outros aspectos da sua vida fora do esporte. Depois de anos sofridos, ela encontrou na modalidade um novo propósito.
A vivência como atleta despertou nela o desejo de seguir um caminho que até então nunca havia cogitado, o de se tornar profissional de Educação Física: “Depois que comecei a viver a rotina de atleta, percebi que um treinador que também é atleta entende o que o aluno sente. Você sabe até onde pode ir, sabe orientar melhor. Foi aí que pensei: ‘É isso que eu quero para mim’. Além de atleta, eu quero ajudar pessoas, principalmente quem passa pelo mesmo problema que eu!”, relata.
Imagem 2 — Atleta Ariadne Villms em competições
Fonte: Arquivo Pessoal
Quando a natação voltou a ser essencial em mais um processo de recuperação
Em 2025, após perder totalmente a cartilagem do fêmur e voltar a conviver com limitações até nas atividades mais simples do dia a dia, Ariadne Villms descobriu que precisaria passar por mais um procedimento importante: a colocação de uma prótese no quadril.
Na época, além da cirurgia, ela ainda precisou lidar com os custos elevados do procedimento, já que o método utilizado exigia o uso de um robô específico para realizar a medição da prótese. Mesmo diante das dificuldades, a nadadora encontrou apoio justamente dentro da comunidade que construiu através do esporte ao longo dos últimos anos: “O pessoal da natação me ajudou bastante, inclusive com uma vaquinha para arrecadar dinheiro para a cirurgia. Foi bem legal e emocionante!”, conta.
O procedimento aconteceu em novembro de 2025 e marcou mais um momento delicado na trajetória da atleta. Ainda assim, diferentemente das recuperações anteriores, dessa vez o processo aconteceu de maneira mais rápida e positiva, muito impulsionado pela rotina ativa construída através do esporte.
Poucos meses após a cirurgia, ela já havia retomado os treinamentos dentro da água: “Eu coloquei a prótese no quadril em novembro de 2025 e, em fevereiro de 2026, já estava treinando novamente porque minha recuperação foi muito rápida”, lembra.
Mais uma vez, a natação ocupava um papel central no seu processo de recuperação, onde continuava funcionando não apenas como parte da sua rotina, mas também como uma ferramenta de autonomia, reconstrução e qualidade de vida!
Ariadne Villms, finalmente, encontrou uma nova forma de enxergar a vida!
Depois de anos convivendo com tantos problemas, Ariadne Villms encontrou no esporte muito mais do que desempenho esportivo. Ao longo da sua trajetória, a natação passou a representar autonomia, bem-estar e uma nova forma de enxergar a própria história!
Toda essa transformação, inclusive, influenciou diretamente suas escolhas profissionais. Hoje formada em Educação Física, o esporte se tornou um caminho para também ajudar outras pessoas através da própria experiência: “Hoje eu sou quem eu sou graças ao esporte. Ele me mostrou que não existe limitação. A medalha vem como consequência, mas a saúde e a possibilidade de não sentir dor são maravilhosas”, afirma.
Atualmente, a nadadora é acompanhada pelo treinador Yuri Wojciechowski, da assessoria esportiva Power Natação Master. Ela chegou à equipe no final de 2024, justamente em um momento em que a atleta já se sentia desgastada física e emocionalmente após um período excessivo de treinos: “Antes dele eu vinha de uma rotina muito pesada e já estava praticamente em overtraining. O Yuri resgatou em mim o prazer de nadar novamente. Hoje estou nadando novos estilos, novas distâncias e evoluindo muito com ele!”, conta.
Além da nova fase ao lado da equipe, ela também passou a utilizar a plataforma Treinus na organização da sua preparação esportiva: “É a primeira vez que treino com uma plataforma tão completa! Hoje o meu treinador consegue acompanhar tudo pelo aplicativo. O relógio envia as informações direto para o aplicativo e ele consegue saber como foi meu treino, meu descanso, a metragem e até outras atividades, como musculação e bike. Também consigo registrar como me senti no treino, se estava frio, calor ou mais cansativo. Estou gostando bastante dessa experiência!”, relata.
Hoje, mais do que colecionar medalhas ou buscar resultados, Ariadne Villms segue construindo uma relação com o esporte baseada em constância, saúde e superação diária. Depois de diferentes recomeços e uma trajetória marcada pela persistência, ela carrega uma convicção que se fortaleceu dentro da água ao longo dos anos: “Depois da chuva sempre vem o sol. Eu passei por 13 cirurgias e, mesmo assim, depois de cada uma delas eu já pensava em voltar a treinar. Seja corrida, musculação, natação, yoga ou caminhada, faça alguma coisa. O esporte é um grande remédio!”, finaliza.
Sobre a atleta
Ariadne Villms tem 33 anos, é graduada em Educação Física, atleta master de natação e campeã brasileira em diversas provas. Venceu o Circuito Brasileiro de Campeonatos em 2022 e voltou a se destacar nas competições de 2024, conquistando novos troféus na categoria. Hoje, une a experiência como atleta e profissional para desenvolver treinos individualizados de natação e musculação, ajudando pessoas a conquistarem mais saúde e qualidade de vida através do esporte.


